MINHA TIA NÃO GOSTAVA DE DESPEDIDAS

Por Daniel Pompeu

Minha tia nunca foi exatamente a mais gentil das pessoas. Costumava distribuir ordens de forma ríspida a quem cruzasse seu caminho. Empregadas, porteiros e motoristas geralmente não escapavam de suas implacáveis exigências-surpresa. “Bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” eram só pros feriados mais importantes e quem arrancasse dela um sorriso, já poderia se considerar sortudo.

Dinheiro sempre foi muito importante pra ela. Era corretora de imóveis e extremamente competente no que fazia. Vendia casas, às vezes, pelo dobro do preço de mercado. Tinha vários amigos em high places e não se envergonhava de utilizar seus contatos para conseguir clientes que a renderiam uma comissão mais gorda.

Minha tia morreu por volta de um ano atrás. Morreu. Ponto. Foi exatamente deste jeito: súbito, cruel e banal. Morreu de embolia, segundo os médicos, por fatores genéticos, porque bebia cerveja e porque comia muitas porcarias.

Geralmente, e às vezes até por regra, a morte se encara com pesar, sofrimento. Somos puxados pra esse buraco negro de tristeza socialmente convencionada, que intensifica a perda de um ente querido e nos mantém no cabresto do luto. Eu encontrei o corpo. E meus familiares não são os melhores gestores de sentimentos, entraram em suas conchas pra se lamentar e me deixaram pra lidar com os restos físicos. Esperei médicos, funerárias e policiais por algumas horas. O clima era frio e indiferente. Só estava resolvendo burocracias. Lidei com as coisas como ela lidaria: de forma rápida e eficiente, sem drama. Não chorei, não sorri, apenas estava ali.

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Foto: Pixabay

Existe um protocolo social muito engessado para mortes. Passo 1: chorar. Passo 2: ficar com a cabeça baixa por 6 horas no velório. Passo 3: chorar mais. Minha tia odiaria tudo aquilo. “Quanto drama! Morrer é fácil, a vida é que é difícil!”, ela diria.

Minha tia não gostava de despedidas.

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