MATAR E MORRER POR ALLAH

Por Muntaser Khalil

O quadro que meu avô pendura na parede da sala chama a atenção de quem chega ali. O retrato do seu sobrinho, combatente palestino, segurando um rifle juntamente com a bandeira da nação pela qual ele lutava para existir e que morreu há alguns anos num desses incontáveis ataques de Israel. A morte do jovem soldado foi motivo de orgulho para toda a minha família que ainda vive em territórios antissemitas, pois acreditam na existência da Palestina.

É algo normal para uma família islâmica sentir orgulho diante da morte de um parente que luta em nome do jihad. São adultos treinados desde criança para crescerem sentindo ódio pelo inimigo. Ainda pequenos trocam os brinquedos por armas e treinamentos militares em acampamentos. Assim, morre-se duas vezes na Palestina, na primeira morre a criança que passa a ser adulto com 9 anos e, na segunda, morre-se em nome de Allah.

Com o sobrinho do meu avô não foi diferente. Cresceu sentindo os efeitos dessa guerra. Todos os dias de sua vida foram alimentados com o ódio por Israel e a esperança da existência de um Estado Palestino. O amor à sua pátria e o ódio pelo inimigo fizeram com que ele se tornasse combatente de guerra. Enquanto viveu, foi na base do oito ou oitenta, amou e odiou demais. É uma realidade perigosa que não deixa margem para outros caminhos. Nascem com o destino pré-programado pela história. São marcas dessa guerra.

Ou matam ou morrem ou morrem matando, essa se tornou a única alternativa dos que lutam na guerra pela existência da Palestina. Não existe outra saída. É uma batalha injusta e desproporcional, normalizada pelo restante do mundo. São ensinados a matar e morrer por Allah como única opção. E, porque acreditam, oferecem sua vida esperando recompensas num outro plano, numa outra vida em outro lugar. Esperança demais ou de menos?

Longe da realidade na qual os palestinos vivem, minhas alternativas de paz enquanto ascendente daquele povo são poucas, mas diferentes das vividas por eles. Nunca tive que lutar com minha vida em jogo pela existência do país que nasci, muito menos passar por treinamentos bélicos ainda criança. Matar e morrer por Allah para mim é uma realidade muito distante, mesmo que isso aconteça na minha família que só conheço por Skype. Mas esse distanciamento não anula o fato de eu acreditar no direito que o povo palestino tem de viver sem ter que matar e morrer para que a vida aconteça. O fato de que não podemos simplesmente ver tantas pessoas morrerem e agirmos como se fosse algo normal, desse planeta, desde que aconteça só naquela região.

O orgulho que as famílias sentem ao perder um dos seus talvez seja uma forma de esperança para o povo palestino. Esperança de seus sobrinhos, filhos, netos, irmãos estarem num lugar melhor, diferente daquele onde perdem suas vidas lutando por algo que parece não ter fim, até para os mais otimistas. É esse orgulho que ameniza a dor vivida num lugar difícil e esquecido, mas sempre bombardeado. O orgulho é, então, uma forma de preencher o vazio que deixamos quando ligamos a TV ou lemos o jornal e só contamos corpos.

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