LENDO SOBRE A MORTE E PENSANDO SOBRE A VIDA

Por Anna Vitória Rocha

Eu sou uma pessoa mórbida. Ou talvez seja o contrário disso: a jornalista Eliane Brum, ao escrever sobre a morte, diz que mórbido é o medo daquilo que não pode ser nomeado ou pronunciado, que nos paralisa; para ela, falar sobre a morte nos dá uma oportunidade sem igual de pensar sobre a vida.

Concordo, e essa é minha justificativa bonita e filosófica para algo que acontece comigo desde sempre, sem grandes explicações: eu penso muito sobre morte. Não tanto sobre a minha (confesso que não ligo, contanto que não doa), e nem sobre a dos outros (essa sim eu evito, pois me apavora), mas a morte num sentido mais amplo e geral, ou então aspectos da morte que esclarecem coisas sobre a vida.

Assim também funciona a arte, que não passa de um reflexo das inquietações humanas, além de ser um meio encontrado pelos homens para lidar com esse aspecto da existência que, para muitos, ainda parece impossível de se lidar. Não é à toa que a ficção, tanto a literatura, como o cinema e as séries de TV, está cheia de obras que falam da morte, direta e indiretamente, dos mais diversos ângulos.

Um dos pontos que mais chama a atenção em “A Menina que Roubava Livros“, por exemplo, é a presença da morte como narradora da história. Sai do foco aquela figura assustadora e intangível para se apresentar uma entidade que aprecia o céu e as cores, se interessa pela vida dos seres humanos e seus dramas e se esforça ao máximo para incomodar o mínimo enquanto faz o seu trabalho. Aliás, ela faz questão que saibamos que ela só está fazendo seu trabalho, não é nada pessoal.

E como veem o mundo aqueles que já morreram? Brás Cubas, defunto autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas“, de Machado de Assis, jura que não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados. Ele afirma isso para justificar a franqueza com a qual relata sua vida, uma vez que não vê mais necessidade de esconder o que se passa na sua consciência quando não há vizinhos, parentes, amigos ou qualquer outra pessoa para julgar seus feitos e opiniões. Quer dizer, talvez até haja no além quem lhe olhe torto, mas se tem uma coisa que os mortos fazem bem é não se importar.

Não é assim que deveria ser, tanto na vida como na morte?

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Foto: Divulgação/Editora ARX

Mas se os mortos não se importam, a parte mais difícil fica com os vivos. Foi de tanto ler a respeito do estrago que a morte alheia produz em quem fica que formulei a teoria de que é mais justo chorar por eles. É a única conclusão possível quando se lê algo como “Para Francisco“, de Cristiana Guerra. A autora perdeu o marido quando estava prestes a dar a luz ao filho dos dois e o livro surgiu de um blog onde ela escrevia cartas para a criança – Francisco – contando histórias sobre o seu pai, para que, mesmo tendo nascido depois de sua morte, ele ter a chance de conhecer quem foi esse homem.

Falando assim parece um livro insuportavelmente triste, e talvez seja, mas a impressão que fica, antes de qualquer coisa, é que se trata de um livro lindo, carregado de amor. Cris Guerra, com muita delicadeza, resolveu viver seu luto com mais amor, por mais tempo e com mais intensidade para que ela não esquecesse do seu grande amor e para que Francisco pudesse sempre se lembrar do pai que teve, e assim ter sua origem garantida.

Já “Paula” foi o livro que Isabel Allende escreveu para a filha – Paula – em coma, sem perspectiva de acordar. O prognóstico era imprevisível, mas quando (e principalmente se) Paula acordasse, ela provavelmente teria danos neurológicos e não seria mais a mesma. Assim, a solução encontrada por sua mãe escritora foi fazer um relato minucioso da própria vida, e da vida de Paula, para garantir que ela tivesse memórias quando acordasse.

Paula nunca acordou e o livro intercala o passado de Isabel Allende – uma vida tão maluca e cheia de viravoltas que só podia mesmo acabar imortalizada num livro – com o seu presente de acompanhante de hospital e mulher que, pouco a pouco, acompanha a partida da filha. É triste, é quase cruel, mas também é um livro lindo de morrer (perdão) sobre o maior amor do mundo. Porque todo o resto pode acabar um dia, mas é o amor que faz sobreviver – tanto quem já foi, como quem ficou pra trás.

Aliás, a última indicação é sobre um livro que fala justamente sobre isso, o esquecimento dele, ou então o medo de ser esquecido. Vocês provavelmente já ouviram essa história antes e até se cansaram dela, mas vamos lá: em “A Culpa é das Estrelas“, Hazel e Gus são dois adolescentes com câncer. Enquanto ela se sente uma granada prestes a explodir aniquilando todos ao seu redor, o que torna ela uma garota isolada que tenta diminuir ao máximo possível os danos que provoca no mundo e nas pessoas ao seu redor, ele faz o maior esforço para fazer da vida algo memorável, digno de nota, para garantir que nunca seja esquecido.

O livro favorito de Hazel é sobre uma garota que está morrendo e ele acaba no meio de uma frase. Ela e Gus passam a história inteira tentando desvendar o que acontece depois daquela vírgula – eles entendem que a garota morreu, mas querem saber o que foi feito do resto dos personagens. Essa dúvida consome os dois, cada qual com seu motivo, mas a essência é que a nossa vida também vai acabar no meio de uma frase, daqui a 5 minutos ou 50 anos. E o mundo vai continuar girando quando não estivermos mais aqui, para o bem e para o mal. Está tudo bem até que não está mais e não tem nada que a gente possa fazer com relação a isso. A gente não escolhe se vai sair machucado desse mundo e ele é tudo, menos uma fábrica de realização de desejos.

Não existe muito o que se fazer com relação ao inevitável senão seguir em frente, um infinito de cada vez, um pequeno, outro um pouquinho maior. Vamos ajeitando como dá, fazendo o melhor com os nossos dias numerados e tentando ser grato no final. Se dermos sorte, não vamos querer trocá-lo por nada.

E fim.

No fundo, acho que pensar muito sobre a morte é pensar demais sobre a vida, pois é só diante desse oposto que conseguimos colocar a existência em perspectiva.

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