CRESCER COM A MORTE É UMA FAÇANHA

Por Victor Albergaria

Quando me falaram para escrever nesta edição da Nós em que o tema seria a morte, logo fiquei animado. Afinal, estou no meio do processo de um Trabalho de Conclusão de Curso onde, justamente, o ponto principal é a danada da morte. Conforme fui pensando sobre, formulando diversos questionamentos em minha cabeça, externei um deles para amigos mais próximos: a morte existe?

Lógico, a pergunta é tão tola no sentido biológico quanto dizer que somos oriundos da cegonha. Mas meu questionamento é mais intenso e tem seus desdobramentos. Expliquei que quando uma grande figura popular (independentemente de sua área de atuação) morre, dificilmente você consegue compreender que aquela pessoa se foi. Em outras palavras: com sucesso, a morte mitifica as pessoas de expressão, muito por conta das coberturas que a mídia faz.

Na cabeça, me vieram quatro sem esforço: Luther King, Lennon, Tancredo e Senna. Estou errado em dizer que os feitos destes sobrepujaram o fato clínico? Entendo que não. Provavelmente as circunstâncias trágicas que os levaram ao óbito acabaram por valorizar seus atos em vida e a morte foi um mero desvio de percurso.

Fotos: Dia da Mudança / Público / The Guardian

Comigo, a questão é bem mais simples que toda essa discussão comunicacional. Eu sempre acreditei que a morte é uma perda muito mais carnal que qualquer outra coisa. As conquistas de qualquer um, seja de uma lenda do rock ou seja de meu pai, sempre prevaleceriam com o passar dos anos e independentes de qualquer situação, porque o legado é antiaderente ao morrer.

Claro que não poderia cometer a loucura de dizer que não faz falta aquele que partiu, até porque sei bem como faz. Mas depende de nós mesmos levarmos a vida como um processo construtivo, sendo até a morte uma parte desse processo (veja só que ironia!). Ela se faz presente em muitos sentidos: no término de um relacionamento, na perda de uma amizade… e, sim, no falecimento de alguém próximo. Se, nos dois primeiros casos, a primeira coisa que você diz “é hora de sair fortalecido”, “levanta a cabeça”, “a vida segue, companheiro”, qual o impedimento de aplicar isso ao último ponto?

Ó, dica de um amigo: releva. A morte pode até existir, pregar peças e fazer chorar. Mas deve, nunca, lhe matar. No fim das contas, ela acaba confirmando a própria existência e me respondendo: “sim, eu existo e estou bem viva”. Mas é você quem faz o jogo: as boas lembranças e as benesses ficam e elas devem ser alimento para a vida. Depende de você entender a morte ou fazer dela uma muleta para suas reclamações.

Coitada da dona Morte, ela só faz o trabalho dela.

Tirinhas: Reprodução/Maurício de Sousa

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