RESENHA: “NÓS SOMOS AS ESTRANHAS, SENHOR”

Por José Elias Mendes

Uberlândia, 01 de junho de 2015

Querida Sony Pictures,

Não estou feliz. Por favor, não regrave ‘Jovens Bruxas’ (‘The Craft‘, no original). O remake do longa de 1996, anunciado por vocês neste mês de maio – de acordo com informações do Hollywood Reporter – não está agradando nem um pouco. E não é só a mim! A massa de fãs está revoltada e expressa seus sentimentos nas redes sociais, em especial o Twitter.

Apesar de pouco aclamado pela crítica especializada da época, ‘Jovens Bruxas’ marcou o imaginário de uma geração que passou a década seguinte faltando à escola sempre que o filme era exibido pela ‘Sessão da Tarde‘ (principalmente o meu, que faço isso até hoje). Clássico cult que se tornou, a obra ditou moda e fez todo adolescente desejar ser um bruxo, popularizando a religião neopagã Wicca, num tempo em que não se falava tanto em magia e bruxaria.

A verdadeira mágica do cinema noventista e boa parte da explicação da nostalgia que ele causa em seus fãs está nos efeitos especiais daquela época. Com as tecnologias desta indústria ainda começando a se desenvolver, tudo ainda vagava pelos campos do experimental, dando às produções uma pitada trash que todo mundo ama de paixão.

Fonte: Canal Sony Pictures

Ainda, a trilha sonora original de ‘Jovens Bruxas’ é insuperável. Diz aí: um filme que começa ao som de Tomorrow Never Knows, dos Beatles, só poderia ser um sucesso de audiência, concorda? How Soon Is Now?, dos Smiths, gravada especialmente para o filme pela banda Love Spit Love, ficou tão marcada que, anos depois, seria utilizada como tema de abertura do seriado Charmed, da WB, que também contava a história de jovens bruxas.

Aliás, pra que mexer em time que está ganhando, não é mesmo? Como superar Fairuza Balk e Neve Campbell, imortalizadas em nossos corações depois de suas interpretações na película? Principalmente depois de ler os intermináveis boatos da sondagem de Emma Roberts para um dos papéis. Sério mesmo? Não me leve a mal, adoro Emma Roberts. Mas o fato de ela ter acabado de interpretar (com primor) uma jovem bruxa na terceira temporada do seriado ‘American Horror Story – Coven‘ não significa que ela deva viver toda e qualquer bruxa do cinema. Que morte horrível estigmatizar um artista!

Foto: Divulgação

É por essas e por outras que eu imploro: Sony, por todo o poder de Manon, não regrave ‘Jovens Bruxas’. Se insistir nessa ideia, penso seriamente na possibilidade de organizar um panelaço.

Com carinho,

Um fã indignado


“Leve como pena, dura como tábua”

De fato, ‘Jovens Bruxas’ foi baseado nos preceitos da Wicca, dando grande visibilidade a essa religião neopagã e se tornando um ícone referencial para aqueles que desejam se iniciar nas artes da bruxaria e ocultismo. Mas não se engane! Apesar de a produção ter recebido a severa consultoria da sacerdotisa wiccan Pat Devin, quase tudo no filme é ficção.

Do pouco que se manteve da verdadeira tradição da religião, está o mote principal do filme: “tudo o que se faz de bom ou ruim, volta potencializado em três vezes”. Trata-se da Lei Tripla, crença muito valorizada pelos wiccans. Tirando alguns mantras utilizados, todo o resto é fictício.

Dentre os exemplos mais gritantes está o Grande Espírito Manon que, quando conjurado pelas garotas, dá-lhes poderes sobrenaturais. Manon não existe e foi inventado, principalmente, para evitar que espectadores inexperientes tentassem invocar uma entidade real.

Ainda, os feitiços que compõem as cenas mais clássicas do filme – como a levitação de Rochelle, os voos de Nancy e a mudança na cor dos cabelos de Sarah – também são criações dos roteiristas e não são praticados em rituais pagãos.

Fonte: Canal Rick Ghisio Lavigne


Releitura

E não é só pela refilmagem anunciada pela Sony que ‘Jovens Bruxas’ voltou a ser assunto em pleno ano de 2015. A girlband britânica ‘Little Mix‘ acaba de lançar, no último dia 29, o videoclipe de seu novo single, ‘Black Magic‘. Com claras referências – desde a recriação de cenas à alusão ao contexto da época –, o clipe foi explicitamente inspirado no clássico de 1996.

No vídeo, as quatro integrantes do ‘Little Mix‘ (Jade Thirlwall, Jesy Nelson, Leigh-Anne Pinnock e Perrie Edwards) reencarnam Sarah, Nancy, Bonnie e Rochelle num cenário high school e veem suas vidas mudarem radicalmente quando entram em contato com a magia. As diferenças são óbvias: a virada do século proporcionou muitos avanços no campo dos efeitos especiais.

Cena de Jovens Bruxas, 1996

Cena do clipe de Black Magic, da girlband Little Mix, 2015

Música, fotografia e o figurino retrô merecem nota 10. Entretanto, o grande erro da releitura fica a cargo do esquecimento da moral do filme, “o feitiço sempre se volta contra o feiticeiro” (nesse caso, literalmente!). As meninas do ‘Little Mix‘ se entregam ao recalque, aprontam todas com as inimigas do colégio e saem ilesas, sem pagar pelos seus atos. Em tempos de feminismo em voga, produções que reforçam a inimizade entre mulheres em detrimento da sororidade não deveriam sequer existir – principalmente destinadas ao público infantojuvenil e adolescente.

Assista ao videoclipe:

Fonte: Canal Little Mix VEVO

P.S.: Por ora, tá bom de mexer com ‘Jovens Bruxas’, né?

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