NÃO CRER TAMBÉM É OPÇÃO

Por Maysa Vilela

As pessoas têm constante necessidade de agarrar-se a algum tipo de fé, seja para fugir da realidade, para entrar em contato com seu eu-interior ou para encontrar alguma esperança diante de problemas do dia-a-dia. Na direção oposta, os ateus preferem não acreditar em nada místico ou sobrenatural. A Nós bateu um papo com o estudante de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Felipe Michelon, que, apesar de não gostar desta nomenclatura, se posiciona na sociedade como ateu. Confira!

Arte sobre a obra “A criação de Adão“, de Michelangelo: José Elias Mendes

Nós: O que é ser ateu?

Felipe Michelon: Ateu vem do grego, a theos, e significa “aquele que se afastou dos deuses”. É uma definição que vem de uma não-crença, se definindo por aquilo que não é, excluindo o indivíduo de um lugar-comum na sociedade, com denotação claramente sectária. Eu não acho o emprego desse termo particularmente feliz, simplesmente não penso em mim como ateu, me aparto dessa terminologia.

Nós: Você sempre foi ateu? Se não, o que te fez mudar de ideia?

FM: Não, já fui bem católico por causa da minha família. Com o tempo, toda essa explicação mitológica não foi o bastante para mim. Embora sejam respostas totalizantes, não esgotam as questões da vida, o universo e tudo mais. Conforme eu cresci, me permiti conhecer o “outro lado” – você não entra em combustão espontânea por ler Richard Dawkins, Sartre, Nietzsche, Foucault ou por assistir Jesus Cristo Superstar. Eu não acho legítima a crença que se dê ignorando todo um conjunto de produção de conhecimento, questionamento e problematização. E isso acontece com a maioria das crenças: qualquer coisa que a questione é repudiada, dada como profana, embora possa ser tida como prática política, na medida em que visa manter e ampliar o poder que exerce sobre as pessoas. Mas não me parece meramente política por se valer de um outro conjunto de fatores, como a ideia de inferno e suplício eterno no fogo. Isso amedronta as pessoas! Nesse aspecto, cabe atentar para o que Bauman fala em “Ensaios sobre o conceito de cultura“. Há uma inversão entre cultura e natureza, sendo que, nesse processo, a cultura é tida como natural, qualquer atentado a essa nova natureza é sumariamente reprimido. Fui mudando porque não vi mais sentido naquilo que, antes, me foi apresentado como natural.

Nós: Por que ser ateu? Existe algum motivo específico para seguir esta linha de pensamento?

FM: Por que não ser ateu? Essa pergunta parte do pressuposto de que o ateu destoa, não é meramente algo diferente, é algo à parte. Eu não simpatizo com o termo, como já expus, mas acho necessário que as pessoas se pronunciem sobre isso, afirmem sua posição. Perceba que é normal um religioso falar de deus em público, mas alguém questionar passa por mau gosto, parece desrespeitoso. Oras, o religioso não se preocupa em respeitar o não crente, já está consolidada essa situação, que tende à inferiorização de quem não é.

Nós: Há outros ateus em sua família?

FM: Não, eles são todos perdidamente católicos.

Nós: Como sua família lida/lidou com o fato de você se tornar ateu?

FM: Minha mãe surtou, ficou desesperada, queria que todos ficassem juntos no céu depois da morte. Ela, inclusive, me fez ir conversar com um padre “sujeitinho” que ela considerava über ilustrado. Nunca fui tão desrespeitado na minha vida. Ele ficava falando sobre como deus não estava feliz comigo, mas que em seu amor imensurável eu encontraria indulgência caso voltasse à fé. Eu não falei pra ele que a vida dele era uma mentira, que ele estava perdendo o tempo de sua existência medíocre com coisas que não existem, que ele era um enrustido querendo fugir de si mesmo. Simplesmente não disse, mas ele insistiu em rir das minhas posições – bem mais estudadas que as dele, se é para fazer considerações sobre. Me disse que aquilo era característico de um adolescente, que em contato com o mundo é mais sugestionável pelas forças do mal. Ele realmente “cuspiu” isso! Hoje eles ignoram, tratam como uma fase e prosseguem com a vida de protocolos, desejando bençãos e não sei mais o que.

Nós: Ser ateu significa ser contra as outras religiões ou existe alguma pela qual você tem algum afeto especial?

FM: Eu não gosto do efeito das religiões nas pessoas, acredito que uma educação com forte sentido ético já deveria manter a ordem, mas isso é impraticável como nos encontramos. No entanto, eu vejo muito valor nas religiões por elas espelharem o homem em sua relação com o mundo, num sentido antropológico puro. Não gosto do que as instituições fizeram com a mensagem. Jesus dizia coisas maravilhosas sobre o amor e alteridade. São Francisco se empenhava em uma renúncia de si mesmo que é um exemplo fantástico. Mas essa mensagem se perdeu em partes, a religião é instrumento de poder, por ditames dogmáticos que, muitas vezes, ensejam o ódio e a exclusão por criar essa ideia de pertencimento completamente ufanista. Eu acho inaceitável o que muitas igrejas evangélicas vêm fazendo. Aquele Edir Macedo é um psicopata corporativo, ele explora os pobres, carentes em todos os sentidos, através de uma mensagem que é mero recorte de muitas coisas – cadê seu deus imutável e absoluto no tempo? Eu não aceito as religiões por achar que elas não explicam de uma forma verdadeira o mundo, mas não me oporia à alguma que seja mero norte de conduta, conduta que seja coerente e que traga às pessoas felicidade e bem estar. É um pouco opiáceo essa ideia de ser feliz, mas reconheço que a descrença absoluta não é algo confortável. As pessoas precisam de algo para depositarem sentido, só não venha tentar me incluir nisso, eu não me identifico com essa prática.

Nós: Você possui outros tipos de crença?

FM: Não, já fui em várias religiões por curiosidade mesmo, mas nunca acreditei em nada. Todas elas tentam estruturar um sistema lógico, mas isso cai por terra quando não pode ser demonstrado, sendo credível o silogismo quando você admite a incorporação do mágico como premissa.


Liberdade Religiosa

Ofensas a ateus tecidas pelo apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes de Televisão, levaram o Ministério Público Federal (MPF) a mover uma ação contra a emissora. Cinco anos depois dos comentários, veiculados em 2010, a emissora assinou neste mês de maio um Termo de Ajustamento de Conduta no qual se compromete a exibir 72 vezes a campanha produzida pelo MPF com o objetivo de conscientizar a população acerca da laicidade do Estado brasileiro. Sendo uma concessão pública, a Band tem a obrigação de seguir os princípios constitucionais de veicular conteúdo educativo, informativo e que mantenha o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa. As informações são da Carta Capital, leia o artigo completo.

Confira, ainda, a campanha “O que é Deus?”, do MPF, a ser exibida pela Band:

Fonte: Canal Antonio Garcia

Anúncios