DESCARREGO DE QUE?

Por Paula Nascimento

Meu namorado não sabia trocar pneu até o mês passado. Então um dia o inevitável aconteceu: o pneu furou, a borracharia estava fechada e um estranho muito simpático se ofereceu para ajudá-lo. Pneu devidamente trocado, meu namorado perguntou se poderia retribuir o estranho de alguma maneira enquanto pegava a carteira. O estranho, que nesse momento já tinha um nome – aqui vamos chamá-lo de André – disse que não precisava de dinheiro, mas que aceitava outro favor em retribuição.

O favor era participar de uma espécie de consagração do André no dia seguinte, terça-feira, na Igreja Universal do Reino de Deus. Meu namorado aceitou, é claro. E eu acabei indo junto parte por empatia, parte por adorar conhecer novas religiões.

Não tenho religião formada, fui criada por uma família que é espírita de um lado e católica do outro. Acho que por sempre ter tido contato com lados diferentes de uma mesma verdade, eu aprendi a respeitar crenças e, principalmente, a gostar de conhecê-las. Já fui em terreiros de candomblé, em centros espíritas, igrejas católicas, algumas igrejas evangélicas mais modernas e também já li e conversei com praticantes sobre o budismo, mas, até então, eu ainda não tinha ido em uma dessas grandes igrejas evangélicas, como é a Universal.

Juro que tentei ir despida dos meus preconceitos – é sempre isso que faço quando resolvo conhecer uma religião nova e nunca me arrependi de fazer assim, isso permite que eu absorva o melhor possível de cada uma delas. Mas foi eu chegar lá pra eles voltarem aos pouquinhos. A igreja estava lotada. Surpreendentemente lotada para uma terça-feira à noite. No altar, galões escuros onde se lia “Sessão do Descarrego” enfeitavam a Igreja. Na entrada, uma enorme mão de fogo que dizia algo como “a mão de Deus veio para destruir o Diabo” recebia os fiéis. Tudo se parecia muito com os programas caricatos produzidos por algumas igrejas evangélicas.

O Pastor estava vestido como um médico, de jaleco branco e tudo. Era um cara carismático e quando o culto começou tudo parecia normal, achei que ele ia ler um versículo e falar sobre isso, mas não foi bem assim. Era a última semana do mês e ele foi falar do dízimo, de como é importante doar, de como é importante ajudar a obra de Deus e garantir seu espaço no céu. E aí ele chamou os fiéis que tinham o envelope do dízimo e um monte deles se levantou e depositou o envelope próximo ao altar. Depois os obreiros – como eles chamam os auxiliares – entregaram novos envelopes a todos nós (até pra mim, que nem pedi).

Pouco depois o Pastor começou a falar sobre “O Mal”. “O Mal” estava ali, carregando alguns de nós e nós tínhamos que tirá-lo de nossas vidas, pra ele deixar de atrapalhar nossos sonhos e vontades.

Algumas luzes se apagaram.

A igreja fica à meia luz.

Uma música de suspense começa a tocar e então um grito.

“É O Mal!” – anuncia o pastor. Os obreiros correm até a mulher que gritou e começam a rezar junto com ela. E então outros gritos se espalham pela Igreja, enquanto os obreiros correm e o Pastor ora – denunciando que “O Mal” daquela moça surgiu porque ela tomou um passe no centro espírita, que “O Mal” da outra moça é Iansã, que “O Mal” do rapaz é Exú e assim vai. (Nessa parte fiquei um pouco preocupada porque eu tomo passe com freqüência e porque, segundo os búzios, sou filha de Iansã).

Toda a igreja está muito comovida. Oram juntos, respondem em uníssono o Pastor e não estão chocados com o que veem – é como se fosse rotina. Enquanto tudo isso acontece, eu me sinto cada vez mais pesada, como se um monte de energia ruim e negatividade estivessem me sufocando. Isso me surpreendeu. Foi a primeira vez que me senti assim dentro de um local religioso, lugares onde geralmente encontro paz interior e amor, independente da crença envolvida.

E então o Pastor começa a falar com uma moça que estava possuída. Primeiro, a entidade que fala. Ela não quer dizer seu nome. Ela diz que a mulher que está possuindo foi dada a ela por duas mulheres, que ela pode ir embora mas volta outro demônio em seu lugar. Inclusive um desses demônios está agora na esquina (os obreiros correm pra fora da Igreja). E aí o Pastor a obriga a dizer seu nome, a entidade se chama “Ciganinha” e, como falou o seu nome, deve partir. Então é a moça que volta. E aí a moça vai falar. Ela diz que foi em casa de bruxaria, que foi em terreno de umbanda pra incorporar, que a entidade voltou pra vida dela através de um antigo amor, que o demônio acabou com a vida dela, mas que finalmente ela resolveu voltar pra Igreja.

Daí pra frente eu meio que desliguei. Queria ir embora, mas não podia, precisávamos consagrar o André. As luzes se acenderam novamente, cantaram uma música, depois os colares do “carrego” foram arrebentados e jogados no chão pelos fiéis. Então nos entregaram um cronograma de “Reza Forte”. E então nos entregaram um colar com a “Reza Forte”. E aí, finalmente, era hora de consagrar André.

Fomos até o altar, junto com muitos outros, e derramamos sangue de cordeiro – também conhecido como suco de uva – na cabeça do André. E aí eu e meu namorado saímos dali, meio correndo, meio disfarçando.

Imagem: Pixabay

Eu sempre ouvi dizer que a Umbanda e o Candomblé eram religiões malignas e acho que teria acreditado nisso por muito tempo se não tivesse conhecido a mãe do meu melhor amigo que, coincidentemente, também é Mãe de Santo. E foi numa festa do seu terreiro que percebi que essas religiões são as mais tolerantes em relação às outras. Quando perguntei a uma ialorixá de Angola como ela lidava com as outras religiões, ela me respondeu com um sorriso: “existem várias formas de compreender uma verdade. Não tem como saber qual é a correta, então devemos amar e respeitar a verdade dos outros”. Eu fiquei com isso na cabeça desde então. E quando saí correndo da Universal percebi que ali se falava mais em “O Mal” do que no bem – o que, pra mim, independente da crença é o mais importante. Foi a primeira vez que saí de uma instituição religiosa sem ter encontrado nada de bom pra absorver.

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