COLUNA N: NEOPENTECOSTAIS

Arte: José Elias Mendes / Foto: Pixabay

A Nós acredita que a realidade é multifacetada e que jamais existe um único modo de enxergar uma questão, seja ela qual for, mas sim “n” formas. Por isso, em sua segunda edição, apresentamos a coluna “N“, que será publicada na editoria Desembaraço. A proposta é trazer, por diferentes ângulos e com variadas formas, olhares distintos sobre uma mesma questão. Só pra reforçar: d-i-s-t-i-n-t-o-s! Não antagônicos, apenas diferentes.

Para inaugurar a coluna, os jornalistas Isley Borges e Gisllene Rodrigues (com a colaboração do seu marido Marcus Vinícius) nos trazem dois modos de enxergar uma das questões mais polêmicas do neopentecostalismo: o dízimo. Confira os textos.


UM MUNDO PRÓSPERO E ABUNDANTE

Artigo de Opinião
Por Isley Borges

Não fosse a Teologia da Prosperidade, os últimos pentecostais estariam fadados aos ensinamentos da teologia clássica, que diz ser impossível um rico entrar no reino dos céus

Imagem: Pixabay

O neopentecostalismo opera por meio da afirmação do mundo. Esta é, inclusive, uma de suas principais rupturas teológicas com as duas correntes pentecostais que o precederam, o pentecostalismo clássico e o deuteropentecostalismo. Enquanto estes negavam o mundo, considerando-o lugar de pecado, desgraças e sofrimento, e enalteciam os céus e a vida após a morte, aqueles dizem que o reino dos céus é aqui e agora, basta crer e, é óbvio, oferecer a Deus para ser, consequentemente, ofertado por Ele com bênçãos financeiras.

Como explica-nos Weber com a sua sociologia das religiões, todas as religiões precisam lidar com a querela do sofrimento imerecido, da miséria e da morte. É consabido que as religiões de salvação, constantemente, fazem aos fiéis promessas de libertação do sofrimento, seja no além ou neste mundo, seja neste instante, seja em um futuro longínquo, messiânico. Convictas dessa redentora mensagem, destinam-se a serem acolhidas, sobretudo, pelas camadas menos favorecidas da sociedade. Enquanto pobres e oprimidos buscam a salvação, ricos e afortunados não têm a necessidade de serem salvos, apenas necessitam saber que possuem o direito à sua boa sorte no mundo em que vivem.

Muito da história dos “pentecostalismos” tem a ver com um intenso exercício, por meio de sua mensagem, de desvalorização do mundo. Entretanto, diante das mudanças sociais e novas demandas do mercado religioso, precisaram modificar, gradativamente, as suas exigências éticas e estéticas. Esse ajuste gradativo da mensagem pentecostal teve início na década de 60 nos Estados Unidos. Já no Brasil, a modificação é mais recente e data no princípio dos anos 1970 e aprofunda-se com o surgimento do neopentecostalismo. Portanto, Teologia da Prosperidade e neopentecostalismo emergem em único contexto: o de acomodação aos valores mundanos dos pentecostais. Produtos de um mesmo processo, corroboram para a efetivação de um discurso teológico que volta-se para este mundo, não para o além e respondem aos anseios modernos dos crentes contemporâneos. Por essa razão, aquela conversa teológica clássica de que é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico adentrar os céus, cai por terra: para os neopentecostais, Deus quer te ver feliz, próspero e saudável nesta vida, não em um indefinidíssimo além.

Possuindo um público de crentes que, além de desejosos, são munidos de condições econômicas para desfrutar das bondades materiais do mundo, cabe aos neopentecostais substituir as suas concepções teológicas que diziam que os verdadeiros cristãos seriam, senão materialmente pobres, ao menos desinteressados de coisas e valores mundanos. Assim, surge a Teologia da Prosperidade.

Esta teologia está operando e promovendo uma brusca inversão de valores no neopentecostalismo. Neopentecostais têm voltado os seus olhos menos para a redenção após a morte e para os temas bíblicos tradicionais, e, mais para a Teologia da Prosperidade, com a valorização da fé em Deus como meio para a obtenção da saúde, da felicidade, da riqueza, do sucesso e do poder.

O fiel frequenta a instituição religiosa e a vida financeira não melhora? Culpa dele, responderiam os neopentecostais, que não possui fé e esperança suficientes. Mas como fiéis neopentecostais lidam com tamanha responsabilidade sobre as suas costas? O que os leva a acreditar que o seu sucesso e prosperidade financeira têm a ver com o quanto ele doa a Deus por meio do dízimo e contribuições à igreja?

Enquanto uns acreditam piamente na Teologia da Prosperidade e doam o pouco que possuem para serem recompensados por Deus nesta vida, outros servem ao sistema econômico desigual e opressor também nesta vida. Vê-se que a tal luta de classes só se sofisticara: não depende apenas da materialidade das coisas, mas também da subjetividade do indivíduo contemporâneo, desenraizado (sociologicamente falando) e, muitas vezes, em desespero. Cada um crê no que quer, não é mesmo?


UMA OFERTA DE VIDA

Crônica
Por Gisllene Rodrigues e Marcus Vinícius

Fonte: Pixabay

É domingo de manhã. Ao caminharmos até a igreja em um dia quente de primavera vamos cantando um hino que minha esposa e filho conhecem bem, que fez parte de nossa história desde o início da nossa caminhada com Cristo. Ao entrar no templo, um cumprimento caloroso de nossos irmãos renova o ânimo de termos acordado cedo. Entre sorrisos de velhos amigos e apertos de mãos nos sentimos cada vez mais no aconchego de casa. Cada cântico entoado nos eleva à presença divina, à essência da nossa fé.

O pastor sobe ao púlpito e abre o nosso manual de vida cristã: a bíblia. Ao citar uma passagem dos evangelhos sobre transformação e renascimento, minha mente recua anos atrás. Lembro como se fosse hoje, ao sair de casa ainda menor de idade e sem direção certa, fui levado a caminhar por uma trilha de vícios e perdições, um caminho que parecia sem volta.

Certa vez, me recolhi na calçada para pensar como cheguei a tal situação, logo a depressão bateu à minha porta. Mas, um jovem que passava por ali, decidiu aproximar-se. Mais do que uma refeição naquele dia especial ganhei um ouvido amigo e compartilhei minha história de vida. Ele me convidou a conhecer um lugar especial. Perguntei se era igreja, ao que ele me responde: “Sim, é parte da igreja também. Um projeto social para resgatar vidas”. Uma escolha certa e dez anos depois aqui estou eu. Na igreja daquele outrora jovem, que hoje escuto pregar no púlpito.

Os minutos passam e chega o momento das ofertas. Aprendemos que a maior oferta de todas foi feita na cruz por Jesus para toda a humanidade salvar. E sem esperar nada em troca. Muitos hoje não se lembram disso, corrompendo a real motivação do ato de ofertar. Mais do que uma entrega financeira, é uma atitude que ajuda vidas. Assim como as ofertas que um dia me alcançaram na juventude pelo projeto social da casa de reabilitação sustentada pela igreja.

Hoje, apesar de alguns olhares estranhos e comentários maldosos externos, é com alegria que seguro este envelope com a certeza de contribuir para que a casa de Deus esteja sempre de portas abertas e que outras vidas, assim como a minha, encontrem sempre esta oportunidade de ter uma nova chance.

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