BÊNÇÃO CONTRA TODO MAL

Por Geane Amaral

Um galho de arruda na mão, um terço, orações e muita fé. Instrumentos do ofício de um benzedeiro, tradição popular vinda ao Brasil no século XVI com os jesuítas e que continua viva nas fazendas e cidades brasileiras.

Cresci vendo e participando desses rituais. Minha mãe nos levava desde pequenos à casa de Osvaldina Soares Matias, a dona Dina. Senhora simples, religiosa e de um coração grande, aprendeu a benzer com a sogra (isto mesmo, com a sogra!), aos quinze anos de idade e, desde então, não se viu fazendo outra coisa.

Mais de cinquenta anos dedicados a ajudar o próximo – seja no trato da enfermidade física ou espiritual –, dona Dina sentia desde pequena um chamado que, segundo ela, era Deus a convocando e hoje, aos 74 anos, sente gratidão por lembrar sua trajetória de vida que se mistura com as benzeções.

Na sua casa, localizada no bairro Nossa Senhora das Graças, na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, dona Dina realiza, atualmente, as unções, que são orações para a pessoa que a procura. Devido aos problemas de saúde, ela está impossibilitada de benzer em grande quantidade como acontecia nas quartas e sextas-feiras (dias de benzimento), quando reunia por volta de 150 pessoas. Hoje, os benzimentos acontecem numa sala de orações, especialmente construída com doações das pessoas que frequentam a casa, que antes ficava cheia de pessoas aguardando a bênção.

“Eu sinto prazer em ajudar o próximo, porque não sou eu que estou fazendo aquilo, é Deus”, conta. Religiosa desde pequena, dona Dina sentia a presença de Nossa Senhora Aparecida acompanhando-a em sua infância. A benzeção é uma tradição de família, lembra ela, pois apesar da sogra tê-la ensinado, seus avôs também foram benzedeiros.

Foto: Geane Amaral

Desvendando as benzeções

Mas você deve estar se perguntando: o que afinal são as benzeções? São bênçãos acompanhadas de orações realizadas por mulheres ou homens que receberam esse ensinamento. Usualmente passadas de geração a geração, os rituais são cheios de simbolismos, seja nas imagens de santos ou no uso das plantas na hora da bênção, como a guiné e a arruda. Além do sinal da cruz.

A figura do benzedor surgiu junto ao contexto histórico do catolicismo, porque até o século XX era muito difícil encontrar um padre e conseguir a bênção com ele, ou ir a uma missa, pois todos os ritos da Igreja eram em latim. “Por isso havia o conhecimento popular dos benzedeiros que davam a bênção às pessoas que não tinham acesso à Igreja e nem aos conhecimentos médicos, além de serem lideranças religiosas de um local, uma referência”, esclarece Paulo Roberto de Almeida, professor do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

O cenário religioso começa a se modificar em 1962, com o Concílio Vaticano II, conta o historiador. Foram reformulados alguns hábitos, possibilitando as missas serem celebradas na língua de cada país, além de levar os padres para mais perto dos fiéis. Porém, a Igreja Católica ainda não reconhece os benzedeiros por se tratar de uma cultura popular.

Uma curiosidade que esse universo desperta é entender o porquê das mulheres serem maioria nessa manifestação. O historiador explica que “as mulheres são maioria porque elas conhecem melhor as enfermidades dos filhos, ficavam em casa cuidando deles, até por volta do século XX”. Além disso, a figura benzedeira tem toda significação materna, de mãe acolhedora e bondosa, explica ele.

A exemplo do que foi dito, com a dona Dina não é diferente. Católica de criação, na sala de orações encontramos imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida e diversos outros santos, além de velas com intenções que as pessoas levam, muitas vezes acompanhadas de fotos pequenas para serem lembrados em suas orações. Completando o espaço há a jarra d’água benzida e o agradável perfume de alfazema que ela usa para traçar o sinal da cruz em nossa fronte e nas nossas mãos.

Foto: Geane Amaral

No momento da bênção ela nos pede que descruzemos os braços, as pernas, abaixemos a cabeça e começa com as orações, em especial a de Nosso Senhor Jesus Cristo e Divino Espírito Santo – suas preferidas –, traça o sinal da cruz e realiza a prática. Ela benze contra o mau olhado, a inveja, a espinhela caída – síndrome relacionada com anormalidade do apêndice xifoide – enfim, contra todo mal que pode acometer nosso corpo ou alma.

Nesse ritual feito diariamente há 59 anos dona Dina já transmitiu o que sabe a outras pessoas: “já passei para três pessoas [ato de benzer], ensino pra todos que pedem orações, eu passo com o maior prazer, e tem gente que ainda me xinga ‘ah a senhora fica ensinando o que sabe para os outros?’, daí eu falei, ‘eu não vou estar no mundo toda a vida!’”, plantando assim as sementes para que essa cultura continue entre nós.

Inêz Maria frequenta a casa dela há 17 anos, levava os filhos desde pequeninos para dona Dina dar a bênção e garante “ela já se tornou da família porque o carinho que temos por ela é como se fosse de avó com os netos, por isso vamos lá até hoje, tanto para ela me benzer, quanto os meus filhos”. E ainda complementa que a procurou inicialmente para que eles ficassem protegidos contra espinhela caída e mau olhado.

Para ir a uma benzedeira ou benzedor receber uma bênção, é preciso ter fé, “carregar consigo o sentimento de desejo e necessidade daquela bênção”, afirma Paulo Almeida. Mesmo que hoje tenhamos acesso rápido aos médicos e a igrejas – independente de religião – é preciso ter o sentimento de pertença e identificação quanto a essa cultura popular, que é linda de vivenciar e importante retratar.

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