ADOREI AS ALMAS

Por José Elias Mendes

“Tão jovem e tão cansado? É porque você é muito ansioso, , meu fio?”, me disse Pai Benedito tão logo entrei na saleta mal iluminada e repleta de médiuns e pessoas que os consultavam. Pai Benedito é um Preto Velho que parece saber das coisas. Não é à toa que o terreiro de umbanda que leva seu nome recebe dezenas de visitantes toda terça-feira, o dia da Gira de Preto Velho.

Foto: Victória Barão

Naquela terça, o terreiro abria as portas pela primeira vez no ano, tendo passado por um recesso. Por este motivo, a fila estava menor que o costumeiro, eu soube. Nem por isso era curta. Antes de ser atendido, esperei por mais de duas horas. Isto porque Pai Benedito é a única entidade que recebe navegantes de primeira viagem, como era meu caso. Também pelo fato de existir todo um ritual preparatório dos médiuns anterior aos atendimentos.

O ambiente era calmo e sereno. As pessoas guardavam silêncio e os únicos sons que se ouviam eram os que saíam da misteriosa saleta mal iluminada: cochichos, gemidos e canções que celebravam a umbanda, provindas de um velho toca-cds.

Foto: Victória Barão

Não pude deixar de me sentir apreensivo, sentimento comum em jornadas ao desconhecido, além da minha já mencionada ansiedade, que seria identificada pelo Preto Velho dali há minutos. Uma velha senhora guardava a porta da saleta e, em intervalos de cerca de 15 minutos, chamava “mais um! Pode ser de primeira vez”. O próximo da fila entrava e a impressão que dava era de que jamais sairia de lá. Quando finalmente chegasse a minha vez, eu descobriria que minha apreensão fora uma grande bobagem, coisa de gente ansiosa mesmo.

Dentro da saleta consegui identificar que os gemidos ouvidos antes diziam “Adorei as Almas”. Só depois de chegar em casa e pesquisar na internet, descobri que essa expressão, para a umbanda, é a tradicional saudação aos Pretos Velhos.

Fonte: Canal UmbandaBrazil

Depois de ler em meus olhos (talvez nas olheiras) a fonte de todos os meus problemas sem que eu sequer abrisse a boca, Pai Benedito me aconselhou, abençoou e deu seu “passe” – que, devo admitir, tirou, literalmente, com as mãos toda a tensão do meu pescoço. Entrei num quase transe enquanto ouvia as palavras do Preto Velho que vinham da boca de uma senhorinha de pele branca e voz amansadora. Em pé diante deles não ouvi mais o velho toca-cds e muito menos as vozes das outras 14 pessoas dentro da sala. O que me pareceram 2 ou 3 minutos, soube depois que foram 25. Mais tarde descobri que os Pretos Velhos são naturalmente bons conselheiros e não tenho como negar que realmente o são.

Foi uma amiga que me convidou a conhecer a Casa de Oração Peregrinos da Luz Divina Pai Benedito que, de acordo com sua descrição no Facebook, “pratica a caridade pela caridade”. A jornalista Suzana Arantes me conta que foi numa busca por crescimento espiritual que tomou conhecimento do lugar, uma espécie de chacarazinha em plena região urbana do município de Uberlândia, Minas Gerais, que, num chalé de madeira e dois cômodos, atende à população.

De acordo com Wartencil Torquette, o fundador da Casa, o terreiro “é um pronto socorro espiritual, aberto a todos, onde prestamos os primeiros socorros”. Ele afirma que a Umbanda é a única religião verdadeiramente brasileira e que não é codificada, como o espiritismo. Desta maneira, cada terreiro de umbanda carrega diferentes características herdadas de suas diversas raízes. Na Casa de Pai Benedito trabalha-se apenas com as sessões de conselhos de Preto Velho e orientações de Caboclo. Tendo diagnosticado meu problema, Pai Benedito receitou a cura: descanso, além de muita oração e uma dezena de terapias holísticas alternativas.

Não sou cético e, por isso mesmo, abandonei o terreiro perplexo com a precisão do diagnóstico de Pai Benedito. No caminho de volta pra casa, li com atenção as descrições das terapias alternativas em todos aqueles panfletos que recebi do Preto Velho. Ainda hoje os guardo com certo carinho, apesar de nunca ter procurado nenhuma delas. Por ora, sigo ansioso.


Saravá!

A estudante do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Victória Barão, frequenta a Casa Pai Benedito e produziu um ensaio fotográfico. Confira a galeria que a Nós traz com exclusividade.

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