VIDA TRANSBORDANTE

Por Ana Augusta Ribeiro

Edição: Gabriela Guimarães

Dona Marise se casou jovem, o ano era 1961 e ela tinha 21 anos. Uma moça. Hoje, tem 75, dois filhos, cinco netos, uma aposentadoria e um emprego. Ela é como os quase 27% de idosos que, segundo o IBGE, ainda atuam no mercado.

Muitos conflitos passam em minha mente quando penso nos idosos que trabalham. Será que é por necessidade? Para passar o tempo? Por prazer? Por fim, creio ser por isso tudo.

Dona Marise começou cedo, quando casou-se (e eu já contei que foi com 21 anos) já dava aulas de inglês e ficou até os anos 70 exercendo essa função. Então, quando a década de 80 apareceu, mais precisamente em 1982, ela sentiu que estava na hora de mudar. Apesar de querer ter se tornado pesquisadora e desbravar o mundo, juntou-se às ideias do marido e abriram um restaurante. Suntuoso, famoso, fez nome na cidade. E, na sequência da vida, o restaurante já foi bar, casa de chás, doceria e, hoje, ainda vive na forma de um buffet para festas. E quem é que está no comando? A própria.

Ela é uma senhora saudável, 75 com cara de 65. O trabalho para ela não é esforço, é lá que ela vê todo o caminho percorrido, ensina os mais novos e só vai embora quando falam: “Dona Marise, já está bom, pode ir descansar”. A aposentadoria, definitivamente, não a parou.

Penso que ela não enfrenta problemas com colegas mal-humorados, já que ela é quase a rainha do lugar. Quase não, ela é. Porém, Dona Marise sabe bem que ser idoso hoje em dia pode não ser tão fácil e, se dependesse somente dela, nenhum seria invisível.

E, como todos que trabalham, ela acorda cedo, faz café, vai trabalhar, costura as roupas das netas, ajeita a casa e ainda sobra um tempinho para jogar água nas plantas no fim do dia. Desempenha mil funções com energia de jovens de 20 anos – ou até mais. E não reclama.

Experiência de vida é algo que transborda em Dona Marise! Minhas conversas com ela poderiam se estender em várias crônicas como essa, quem sabe até daria uma telenovela. Do futuro? Ela espera mais 100 anos. Da família? Ela só quer o amor. Do trabalho? Continuação. Até que o corpo ceda para a alma descansar.

Arte: Ila Fox

Arte: Ila Fox

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