VIDA RICA SEM RIQUEZA MATERIAL

Por Maria Paula Martins

Sabe o ditado de que “menos é mais”? Pois bem, eles são a materialização disto. Apesar de que seria contraditório usar a palavra materialização para nos referir àqueles que buscam justamente o desprendimento material. Ainda que muito distante da ideia “mainstream”, a filosofia adotada por essas pessoas vem ganhando cada vez mais adeptos. Não se trata de um movimento linear, mas sim de um fenômeno sem regras ou causa específica. Fato é que, muito além da busca por simplicidade, estes seres estão remando de encontro à felicidade. A Nós conversou com duas famílias para entender melhor como se dá essa mudança de estilo de vida.

Realização de um sonho

Há dez anos o casal José Horácio Santana, 59, e Marta Maria da Silva, 49, decidiram sair do caos urbano rumo à zona rural, em busca de uma vida mais natural e tranquila. Para Zé – como prefere ser chamado – era um sonho retornar às raízes, já que foi criado no campo. Para Marta, era uma experiência nova que possibilitaria uma mudança de olhar sobre tudo aquilo que havia vivido ou que viveria.

Buscando sempre o equilíbrio entre viver longe das facilidades que a cidade proporciona e uma rotina mais calma e flexível, o casal se adaptou sem muito sacrifício à nova realidade. “Nos primeiros meses estranhei o fato de não ter um vizinho logo ao lado pra conversar ou um mercado próximo que atendesse nossas necessidades, mas logo percebi que isso era um privilégio”, ressalta Marta.

Carro só para ir e vir do trabalho. Celular apenas para facilitar a comunicação e nada de ser smartphone. Roupas e sapatos novos somente quando as antigas já não estão mais em condições de uso. Comer bem não diz respeito à restaurantes caros e refinados e, sim, àquilo que eles podem fazer em casa – de preferência com o que a terra lhes provém. Zé faz questão de deixar claro: “Somos totalmente contrários ao consumismo. Não digo consumo, pois sei que temos necessidades básicas para viver, mas esse consumismo supérfluo e exagerado que se vê atualmente é inaceitável na nossa concepção”.

Professor de Filosofia e Antropologia no Centro Universitário do Triângulo, na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, Zé Horácio diz que, na última década, as pessoas têm se preocupado muito com o lado material. “Eles trabalham demais, têm rotinas estressantes, gastam demais e aí têm que trabalhar mais ainda, já que nunca estão satisfeitos com o que possuem”. Felizmente, na sua casa não é assim. Ambos possuem um trabalho na cidade pelo simples fato de gostarem do que fazem: Zé, por ter o dom da palavra e a facilidade em repassar conhecimento, e Marta pela paixão por arquitetura.

Quando questionados sobre os privilégios de se morar no campo, o casal elencou: “Na cidade, nós acabamos sendo muito estimulados pelo meio. Estamos o tempo todo conectados, correndo, cercados de barulhos, o que acaba nos tirando do nosso centro. Aqui, a calma é constante, o silêncio se faz presente”.

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Foto: Maria Paula Martins

Além disso, eles contam com a infinidade de benefícios que a terra lhes proporciona: “Temos plantação de milho, cana, mandioca, capim. Já no pomar tem amoreira, pitangueira, limoeiro, laranjeira, lichieira, cidreira, cupuaçueiro. E na horta, as mais diversas hortaliças”. Sem contar as criações de coelhos, carneiros, vacas, porcos e galinhas, que Zé fez questão de mostrar um por um.

Apesar de todos os pontos positivos que Zé exalta com orgulho, a vida afastada da cidade restringe o contato interpessoal com outros. “Estar distante territorialmente não quer dizer, necessariamente, estar invisível. Até porque, tanto a Marta quanto eu vamos à cidade diariamente, então acabamos convivendo com o caos urbano. Considero minha casa como um refúgio conectado”.

O fator invisibilidade é até considerado conveniente para eles: “Não gostamos desse ‘aparecer social’. Não que tenhamos uma aversão à exposição, só não nos preocupamos com o que representamos e, sim, com o que realmente somos”. E se eles pensam em voltar a morar na cidade? “Jamais! A não ser que sejamos expulsos da nossa casinha na roça”.

Equilíbrio do ser

Marcondes Peixoto, 28, e sua companheira, se conheceram em um almoço vegetariano. Começaram o seu relacionamento e, quando descobriram que ela havia engravidado, partiram para o campo na tentativa de levar uma vida mais leve. “Queríamos oferecer um contato com a natureza, uma liberdade maior e um modo de aprendizado diferente para a nossa filha”. O modo de pensar deles não mudou da água para o vinho, já que há algum tempo eles vinham adquirindo consciência do que é realmente necessário para viver, sem todos os luxos da cidade grande.

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Foto: acervo pessoal de Marcondes Peixoto

Ele trabalha com terapia holística, focando principalmente na respiração e limpeza do organismo. Agora Marcondes e sua esposa Samantha Aggripino, 33, estão com um projeto de abertura de um espaço para ministrar palestras e cursos sobre as formas de desintoxicar corpo e mente, além de servir como ambiente para retiros para troca de energias.

“Acreditamos que a natureza nos proporciona um equilíbrio pleno. O plantio, os animais e os elementos da natureza são todos responsáveis pela harmonização do ser. É uma pena que o homem não saiba cuidar dessas preciosidades”, lamenta Marcondes. Atualmente, o casal não consegue plantar tudo aquilo que consome, mas, ainda assim, possui uma horta-mandala orgânica que eles mesmos construíram.

Além disso, eles estão planejando criar um sistema de captação de água e fazem o possível para economizar energia. “Nós nos preocupamos muito com o planeta Terra, afinal de contas ele é a nossa casa. Então, se queremos colher bons frutos, temos que plantar bons frutos”. A proposta deles é, de fato, saber aproveitar – com respeito – tudo o que a natureza lhes oferece, ficando cada vez menos escravos deste sistema consumista.

A maior alegria do casal é poder oferecer à Ana Clara, filha de apenas dois anos, uma experiência ímpar pelas possibilidades que a natureza oferece. Diria que ela é uma criança de sorte: anda com os pés no chão, cuida dos animais – e principalmente de sua gatinha Mel – como se fossem membros da família e tem uma liberdade rara, além de uma facilidade de lidar com o desconhecido.

“Ela sabe dosar bem a agitação e a calma e tem uma criatividade incrível. Acho que o contato com a natureza engrandece o ser, não é?”, comenta orgulhoso o papai Marcondes. “As pessoas não vinculam a saúde e o bem-estar corporal à felicidade, mas eu creio que qualidade de vida é alegria, paz, amor”.

Por mais que, no começo, eles tenham recebido muitas críticas e comentários, por vezes pessimistas, sobre a mudança, mantiveram a decisão: “Sempre diziam: ‘Vocês não vão dar conta, é uma realidade muito diferente’, mas nós acreditamos que, apesar de demandar trabalho, é completamente cabível uma vida mais natural”. E, por mais que o isolamento seja inevitável, o contato com as pessoas que se fazem importantes é constante. “Acabamos ficando mais invisíveis, já que a distância física aumentou, mas é completamente aceitável, já que foi uma escolha que assumimos”.

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