FRED K. OU NATHALYE?

Por Thais Fernandes

O pseudônimo é um nome fictício inventado por pessoas que não querem ou não podem assinar suas próprias obras. Existem inúmeras razões para esses autores preferirem a invisibilidade, como receio, medo, constrangimento ou até mesmo por questões profissionais. A prática da utilização de um pseudônimo é comum e muitos o utilizam sem esconderem sua verdadeira identidade, já para outros, esse é justamente o intuito.

Esse foi o caso da publicitária Nathalye Araujo, 24 anos, autora de uma história chamada “Por que os garotos só pensam naquilo?!“, popularmente conhecida pela sigla PQOGSPN. A história narra as experiências de três melhores amigos: Thom, Fred e Matth, e relata desde o colegial até o momento em que ingressam na universidade. Contada pelo ponto de vista de Thom – um garoto magro, fumante, mal humorado e de personalidade forte –, a história aborda temas ligados à adolescência, como a amizade, relacionamentos, a relação de pais e filhos, responsabilidades e outros assuntos mais polêmicos, como drogas e Transtorno de Personalidade Dissocial.

A história teve começo no formato de webnovela, em 2010, publicada na plataforma Orkut e, com a decadência da rede, mudou-se para o Tumblr, onde permanece até hoje. Para a publicação, Nathalye optou pelo pseudônimo Fred Krueger, adaptado de Freddy Krueger, o icônico personagem fictício do terror. “Na época em que comecei a publicar (no Orkut), todos os autores de livros virtuais usavam pseudônimos. Como a PQOGSPN era sobre a vida de três meninos e narrada por um deles, achei que faria mais sentido usar um pseudônimo masculino. Além disso, a história falava muito sobre drogas e outros temas um tanto polêmicos, então achei mais seguro optar pelo anonimato”, explica a autora.

Foto: acervo pessoal de Nathalye Araújo

Foto: acervo pessoal de Nathalye Araújo

A autora começou a publicar a história em uma época marcada pelo surgimento de jovens escritores, impulsionados pela possibilidade de criação e divulgação em plataformas virtuais. Por isso, Nathalye conta que quando começou a publicar a PQOGSPN, não imaginava a repercussão que teria: “Antes de começar a escrever, já existiam outras mil histórias publicadas na Internet, mas até então nenhuma tinha feito tanto sucesso quanto a minha, então eu nem sabia que dava pra chegar onde cheguei. Me surpreendi, não só pelo número de leitores, que cresceu rápido, mas também pelo amor que as pessoas demonstravam pela história logo no começo”.

Em um ano de publicação, a história chegou a atingir cerca de 10 mil leitores e o número apenas aumentou. Mesmo com o sucesso, a autora preferiu se manter invisível. Isso permitia que ela mantivesse sua privacidade, ao mesmo tempo em que lhe garantiu mais coragem e confiança. “Eu me sentia muito mais à vontade para escrever usando o pseudônimo e isso fez muito bem pra história. Não sei se teria tido coragem de publicar desde o início se não fosse pelo anonimato”.

Atualmente, PQOGSPN conta com seis temporadas escritas e mais de 25 mil curtidas no Facebook. E, em 2012, foi publicado o primeiro dos já então três livros. Mesmo para a publicação dos livros, Nathalye preferiu continuar com o absoluto anonimato, através do pseudônimo. A história ganhou mais leitores e pareceu engrenar-se em um universo crescente de popularização, o que levou então, aos lados negativos dessa invisibilidade.

A autora recebeu convites para participar de programas de TV, eventos importantes, conhecer leitores e se viu obrigada a recusar tudo. “Decidi assumir depois de levar uma bronca do meu pai por ter recusado participar de um programa de TV. Comecei a me sentir presa àquela condição. Eu sabia que o que mais importava para eles era a história, e não eu, mas que seria mais honesto da minha parte dizer quem estava por trás do pseudônimo”, conta Nathalye, que se revelou no final de 2014.

Nathalye Araújo - Foto: acervo pessoal

Nathalye Araújo – Foto: acervo pessoal

Nathalye não percebeu grandes mudanças a partir do momento em que abandonou o pseudônimo, apenas a chance de se ver ainda mais próxima de seus leitores e ter sua vida pessoal exposta, com o que parece ainda estar se adaptando. “A princípio eu não queria passar os links das minhas redes sociais para ninguém, mas percebi que era besteira forçar esse distanciamento. Já cheguei até a encontrar alguns leitores ao vivo”, conta a autora.

Seja como Fred Krueger ou Nathalye Araujo, com mil leitores ou 25 mil, a autora sempre manteve um bom relacionamento com seu público. A relação de amizade que mantém com aqueles que dizem ser seus fãs, talvez seja a explicação do apoio incondicional que recebe dos mesmos.

Em um universo de escritores que buscam a fama, pode ser difícil compreender o motivo de alguém optar pela invisibilidade de um pseudônimo. No caso da autora de PQOGSPN, esse foi um caminho necessário para sua afirmação e amadurecimento. “Quando decidi mostrar minha identidade, eu sabia que estava preparada para continuar escrevendo do mesmo jeito e sobre os mesmos temas, sem inseguranças”, diz Nathalye.

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