ÓRFÃOS DE PAI VIVO

Por Laura Moreira

No Brasil, além da prática de aborto ser proibida legalmente, o assunto ainda é um tabu. As poucas pessoas que se lançam à vida pública e mencionam a sua legalização, alegando que mulheres ricas o fazem em clínicas clandestinas preparadas, enquanto jovens pobres morrem ou sofrem sérias lesões nas mãos de “açougueiros” ou com as famosas “garrafadas” – chás que prometem o aborto espontâneo – são praticamente demonizadas. As eleições em 2014 são a prova disso, quando dois candidatos à presidência da República, Luciana Genro e Eduardo Jorge, foram praticamente escorraçados ao tocar no tema durante o debate eleitoral.

No entanto, a fúria sobre o direito à vida restringe-se ao período da gravidez e as críticas são direcionadas unicamente às mulheres. O que raramente se discute são os gritantes números que se referem a pais que revogam tanto seus direitos quanto seus deveres com a criança, cortando qualquer tipo de laço, seja afetivo ou financeiro.

Fonte: Pixabay

Se olharmos para os dados do Censo Demográfico brasileiro de 2000, percebemos que uma entre quatro famílias é chefiada por mulheres, sendo a maioria delas monoparentais. Portanto, não é difícil constatar o quanto a abstenção masculina na paternidade é comum. Voltando às eleições de 2014, nos discursos em defesa da “família tradicional brasileira” – na verdade um apelo contra a união homoafetiva – não encontramos sequer um candidato que se preocupou com os 11,1 milhões de núcleos familiares que não possuem pai, apenas mãe. Por isso, podemos concluir também que a evasão masculina na paternidade é cultural e socialmente aceita.

De acordo com Cristina Bruschini, em sua obra “Novos olhares: mulheres e relações de gêneros no Brasil”, as chefes de famílias possuem dupla jornada, na criação e no sustento econômico, gerando muitas vezes o sentimento de insuficiência. Contudo, esses fatores sociais são ocultados pela sociedade, que coloca a culpa na vítima.

Embora no Brasil a justiça funcione, de fato, no que tange à pensão alimentícia, o desafeto e abandono da evasão masculina são invisíveis na sociedade brasileira, tipicamente machista. Se uma mulher, por exemplo, decide abandonar uma criança, é muito possível que estampe os meios de comunicação, enquanto um quarto das famílias é marcado pelo abandono paterno. E ainda há quem diga que falar sobre igualdade de gêneros nesse país é coisa do passado. O machismo, sim, é coisa do passado, do presente e, se não for debatido, do futuro.

Fonte: Pixabay

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