MÚSICA NA OBRA

Por Flahana Pfeifer

Edição: Flahana Pfeifer

Chico Buarque é, de fato, um artista. O cantor e compositor, que tem suas músicas cantaroladas e idolatradas por várias gerações admiradoras da MPB, viu seu talento tornar-se reconhecido. Chico é notado por sua labuta, mas Nilton não.

Nilton César Monteiro da Silva nasceu em 1971, assim como a música ‘Construção’ de Chico Buarque. Chico nasceu em 1944 e Nilton carrega, na idade, o mesmo numeral. Nilton fez sua casa sozinho e Chico compôs o sucesso da mesma forma. Um empilha tijolos e o outro estrofes, ambos constroem.

Nilton sempre quis ser pedreiro e está na profissão desde os 18 anos por influência do padrinho que trabalhava na área. De olhar tímido, o profissional tinha em seu rosto poeira e em seus lábios um sorriso de canto a cada vez que falava sobre sua atuação. “Eu só me imagino trabalhando em obra mesmo. Eu gosto, foi o que eu escolhi pra mim, então me sinto feliz”.

O orgulho de Nilton ao passar em frente às obras que construiu parece superar o medo de quem vive nas alturas erguendo paredes que quase tocam o céu. “A gente trabalha com atenção, mas tem que ter restrição porque pode acontecer a qualquer momento”. Se depender de seus cuidados, flutuar no ar como se fosse um pássaro não está nos planos do pedreiro. Chico deve respirar aliviado.

A cautela não é padrão para todos e Sávio Alves, de 28 anos, é exemplo vivo de quem já se acabou no chão feito um pacote flácido. O pedreiro, que antes trabalhara como servente, não colocou o cinto de segurança e, por isso, despencou de sete metros e meio de altura. Levou no currículo uma fratura no braço, uma boa história e um aprendizado. “Se você trabalhar dentro das normas, não há perigo algum de você machucar ou morrer, mas se você for daqueles caras que não está nem aí para elas, aí você machuca”. Sávio, na verdade, não se acabou, ergueu-se sólido o suficiente para continuar o trabalho.

Apesar de não ter a mesma experiência ou a mesma idade dos colegas de profissão, tais fatores não impedem o ex-servente de ter uma visão já consolidada para quem começou a trabalhar recentemente na área. Para ele, o pedreiro é, ou pelo menos deveria ser, um profissional valorizado, já que é responsável por permitir a realização do sonho das pessoas em ter uma casa própria. Gargalhando como se ouvisse música, Sávio encerra seu pensamento a respeito da nova profissão: “Eu gosto do meu serviço, gosto de trabalhar na colher [ferramenta de aço utilizada para aplicação de cimento, concreto ou outra massa da construção]. Sou feliz com o que eu faço, mas se eu ganhasse na Mega Sena, eu seria um pouquinho mais, né?”.

Assim como Sávio, o encarregado Fábio Oliveira Sousa é um dos mais jovens entre os colegas da profissão. Com 30 anos começou trabalhando como servente e hoje, aos 31, após fazer um curso técnico para mestre de obras, foi efetivado como encarregado, tornando-se responsável por conferir o serviço de obras e delegar funções. Fábio pretende sair da construção e especializar-se na área. “Eu gosto do que eu faço. Você pegar isso aqui do jeito que estava e agora ver que a obra já está lá em cima é uma satisfação muito grande, mas eu me imagino fazendo faculdade de arquitetura. É o que eu quero fazer”.

Aviary Photo_130681688973598955

Fábio Oliveira Sousa – Foto: Maysa Vilela

Já o mestre de obras Demídio Jorge Alves, 56, começou aos 12 anos indo às construções e há mais de 30 está no mesmo cargo.  No quesito experiência, uma conversa com Chico provavelmente os fariam trocar horas de palavras carregadas pela sabedoria do que fazem.

Admirador de seu trabalho, o mestre é categórico a respeito de sua função: “Quando você se especializa em uma coisa, passa a ver qualidade naquilo e procura cada vez mais se aperfeiçoar. Você esquece de olhar outras coisas, não há necessidade também. Isso me preenche, construção civil me preenche”.

Demídio, na verdade, deveria se chamar Ademir, em homenagem a um padre que seu pai tanto estimava, não fosse um erro do mesmo ao registrá-lo em cartório. A história não seria a mesma, mas ainda seria uma boa história, assim como a de Nilton, Sávio, Fábio e tantas outras que dariam uma bela composição ritmada pelo barulho do martelo a incomodar os ouvidos próximos. Até que a canção seja conhecida, que continuem na contramão atrapalhando o público.

Aviary Photo_130681690555642291

Foto: Maysa Vilela

Anúncios