INDEPENDENTES DO ROCK

Por Renata Ferrari

Aquela geladeira não era comum, seu modelo era antigo, mas ela possuía algo especial, que chamou a atenção. Ao contrário de muitas geladeiras que são brancas e com ímãs de bichos ou frutas, essa era um tom de marrom e conversava com a gente. Ela tinha mensagens, adesivos de bandas e símbolos que representavam as personalidades de seus donos: músicos de rock.

Robson

Robson “Podrão” – Foto: Gabriel Tino

Mas esses músicos são diferentes, são invisíveis para a maioria da população. Charles e Podrão (raramente conhecido como Robson), por enquanto, não são celebridades e nem sequer almejam isso: eles fazem música porque é paixão, arte, um projeto de vida. Infelizmente, trabalhar só com a música não é uma escolha fácil e acessível a todos. Em nosso país, se sustentar como músico, especialmente com o rock, é complicado, seja pela dificuldade em alcançar o sucesso ou pela desvalorização salarial durante a carreira.

Então o que resta para aqueles que possuem talentos musicais é se adaptar às outras profissões sem deixar o hobby de lado. Charles trabalha como caldeireiro e toca nas bandas de hardcore Agressão Contínua e FMI. Ele diz que o movimento de bandas underground não possui tanta visibilidade na mídia, mas que tem um público fiel que valoriza seu trabalho.

Charles – Fonte: acervo pessoal

Podrão é eletricista e integrante das bandas Vurmo, Dinossauros Modernos e The Cadavers. O músico conta que já deixou empregos mais rentáveis apenas para ter um pouco mais de tempo para se dedicar à música. Participante do movimento punk rock, é adepto à filosofia “Do it Yourself” (Faça você mesmo) e fabrica as próprias camisetas de bandas artesanalmente, sonhando em abrir seu próprio negócio.

Ouça a demo “A luta é você que faz!” da banda Vurmo, de Podrão:

A segunda parte da demo e outros vídeos podem ser acessados pelo canal da banda no YouTube.

Questionado sobre o espaço que Uberlândia possui para os músicos do movimento underground tocar, ele fala que são poucos lugares e o público é reduzido: “é bem menor do que qualquer outra cena que existe dentro do rock n’roll”. Eles tocam mais em periferias, praças e bares alugados para eventos. Quando acontecem festivais, são organizações coletivas nas quais cada um contribui um pouco para financiar os gastos. Fazem parcerias entre as bandas e, na maioria das vezes, não há uma remuneração para os músicos.

Além das dificuldades financeiras e a falta de espaço, existe muito preconceito: “Várias vezes aconteceu da polícia chegar com umas dez viaturas parecendo que tinha um manifesto. Isso tudo por causa do estilo de som. A falta de visibilidade que tem em relação ao som que a gente faz é falta de interesse de você conversar com a pessoa, é o tal do preconceito… Ninguém tem paciência e quer ouvir o que a gente fala, rotula pela aparência e não quer saber nosso ideal”.

Charles também destaca o preconceito sofrido por quem é punk ou gosta de trash metal. Ele explica que muitas músicas falam sobre corrupção, discriminação, guerras, meio ambiente. Esses são temas debatidos pela sociedade que, muitas vezes, possui a mesma opinião, porém ainda é preconceituosa: “mesmo assim fecham os olhos pro punk, porque não procuram saber. Acham que um punk é marginal ou uma coisa ruim da sociedade”.

Nos eventos de punk, hard rock, entre outros estilos de rock, há um maior destaque para as músicas autorais. Charles e Podrão relatam que, em todos os festivais que participam, sempre tocam suas próprias canções.

Robson

Robson “Podrão” – Foto: acervo pessoal

Quem vive uma cena diversa é o técnico de áudio Marcelo, que faz covers de pop rock em bares da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Foi baterista de várias bandas como Dogma e Houdini e, atualmente, toca com a Sweet Jam, entre outros. A relação que ele possui com a música também é motivada por gosto pessoal, mas vai além. “Música é tipo uma terapia. Muito bom pra cabeça, eu até brinco que em vez de precisar de psicólogo, uso a música. Mas é as duas coisas: um hobby e acrescenta também na questão de grana”.

Confira o cover de “Gypsy” pela banda Sweet Jam, de Marcelo:

Fonte: Canal Sweet Jam

Conseguir tocar em bares para ele é mais fácil porque já possui os contatos das bandas e dos donos dos lugares. Sempre aparece trabalho, geralmente de quarta a domingo. Mas a visibilidade que Marcelo tem nesses locais é diferente. Ele revela que esse não é um ambiente muito receptível a músicas autorais, as pessoas não estão acostumadas a isso. “A pessoa vai lá naquela expectativa simples de querer espairecer, não vai para escutar a música de fato, a música é meio que um acessório, um complemento do que ela ta vivendo na noite. Aí, a partir do momento que você tem visibilidade, aparece na mídia e a mídia realimenta isso”.

Ele diz que, embora não tenha participado de tantas produções, já conseguiu tocá-las em um festival e foi reconhecido. O reconhecimento aconteceu porque a música foi tocada primeiro nas rádios, por isso considera que a divulgação é fundamental.

Para Marcelo, o sucesso não é o mais importante, ele adora o que faz, gosta de participar de várias bandas. Garante que, a cada nova banda, mesmo que os repertórios sejam parecidos, por serem covers, o jeito de tocar sempre é inovador. “Os arranjos são diferentes, são feitas mais improvisações e essa é a emoção de quem toca ao vivo e não apenas em estúdios objetivando a fama”.

Marcelo – Foto: Gabriel Tino

Marcelo – Foto: Gabriel Tino

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