GEMIDOS INAUDÍVEIS

Por Paula Nascimento

Eu sempre soube que existem muitas coisas por trás das câmeras nos filmes. Adoro qualquer documentário que trate da vida de Marylin Monroe e acho que consigo entender porque notícias sobre estrelas de cinema são tão populares. A indústria cinematográfica é glamourosa e se torna quase um Olimpo pra nós, reles mortais. No entanto, uma de suas primas, a indústria pornográfica, se afasta totalmente do glamour de Hollywood – mesmo que seja tão popular quanto seus sucessos.

Que atire a primeira pedra quem nunca assistiu um pornô, quem nunca acessou o XVideos, seja durante a puberdade constrangida ou nos anos seguintes para tornar o orgasmo solitário mais fácil. Há uns quinze anos, quando eu ainda alugava fitas VHS na locadora, lembro de existir uma sessão adulta reservada para os maiores de idade. Hoje, com a internet, a disseminação dos vídeos pornográficos se tornou muito mais simples e efetiva, alcançando também aqueles que têm menos de 18 anos.

(Agora mesmo eu fui pesquisar como anda a venda de filmes pornôs em DVD com as seguintes palavras-chave: venda de filmes pornô cai, e o resultado foi uma sequência de sites voltados para a publicação de vídeos pornô, com títulos como: CAIU NA NET PORNÔ NO CARRO.)

Apesar da popularidade da pornografia na internet, as atrizes e atores são anônimos para aqueles que, esporadicamente, acessam sites pornôs. Quem é que sabe o nome das atrizes que estrelam no XVideos, no RedTube? Imagino que somente os clientes premium desses sites tenham acesso a vídeos completos das mesmas produtoras. E, se a gente não sabe nem o nome de quem figura nesses filmes, como poderíamos nos preocupar com sua biografia, escolhas e vida pessoal?

“Sem nome, apenas forma”  – Arte: Paula Nascimento

Recentemente eu aprendi o nome de uma atriz pornô que foi um sucesso nos anos 90. Shelly Uben, é autora de “Truth Behind The Fantasy of Porn: The Greatest Illusion on Earth” (“A verdade por trás da fantasia do pornô: a maior ilusão da Terra”, tradução livre), presidente da Pink Cross Foundation, uma associação que tem como intuito retirar atores e atrizes da indústria pornográfica, através de ajuda financeira e psicológica, além de também prometer curar o “vício por pornografia”.

Devido a uma construção ideológica bastante confusa, as atrizes pornôs se diferem muito das prostitutas. Conforme o senso comum, ser prostituta é péssimo, é nojento, é errado. Já ser atriz pornô está um pouco acima disso, sendo mais aceito e visto com menos asco do que viver da prostituição. Querer sair da vida de prostituição é ok. Mas não me passava pela cabeça que as atrizes pornôs quisessem sair dos estúdios e, após fazerem isso, precisassem de assistência psicológica para recuperar suas vidas.

Pra entender melhor a importância da Pink Cross Foundation, li uma entrevista de Shelly. Ela relata que nos bastidores da indústria pornográfica acontecem diversas violências contra as atrizes, as únicas mulheres presentes no set de gravação. As agressões são desde as verbais até as sexuais, um verdadeiro show de horrores que se esconde sob loiras de lábios e peitos siliconados.

Shelly conta que é comum no começo da carreira que as atrizes se neguem a fazer uma cena com sexo anal, mas elas se sentem coagidas a fazerem pela situação em que se encontram, então realizam a cena sem sentir prazer algum. E o pior, segundo ela, nos filmes gravados fora do Brasil, não há o uso de preservativos para nenhum tipo de relação sexual.

Em uma entrevista cedida à TV USP, Patrícia Kimberlly, atriz pornô, relata que muitas vezes a violência vem do próprio ator com quem elas contracenam, há uma necessidade deles se afirmarem mais vigorosos sexualmente, o que faz com que tratem as atrizes com violência, dando socos, colocando o pé na cabeça durante cenas de anal, entre outras coisas. Patrícia também diz que, conforme a produtora, não adianta nem mesmo chorar e dizer que está doendo, eles apenas mandam a atriz retocar a maquiagem e dar um jeito de fazer a cena.

E isso não é o pior. Devido ao descaso com os preservativos, as doenças venéreas se espalham pelo microuniverso da indústria pornográfica. Shelly abandonou o pornô por isso – e também devido à sua conversão religiosa – metade do seu útero foi retirado cirurgicamente devido a um câncer de colo de útero que se desenvolveu a partir do HPV.

Em seu livro, ela conta coisas ainda piores e muito mais doentias do que atores que querem ser mais “foda” que os outros ou como a herpes se espalha fácil entre os atores e atrizes. Ela relata que devido à violência/excesso de sexo anal, por vezes as atrizes (e também atores de pornô gay) podem desenvolver uma condição que faz com que a pele do reto saia do ânus, se tornando visível – eu já achei péssimo saber disso, mas acho que uma das coisas mais grotescas, bizarras e desumanas que eu li veio depois. A indústria pornográfica deu um jeito de transformar essa condição em um fetiche, filmando diversos vídeos onde o prolapso retal, nome médico desta disfunção, aparece como um órgão sexual.

A socióloga e professora de sociologia e gênero da Faculdade Wheelock, Gail Dines, afirma que toda essa erotização da violência contra a mulher presente na indústria pornô corrobora e celebra o machismo. Segundo ela, os meninos começam a assistir filmes pornô por volta dos onze anos de idade, fase em que a sexualidade ainda não está totalmente desenvolvida, assim um dos primeiros contatos deles com o sexo se dá através da indústria pornográfica.

Desse modo, a ideia de sexo dos homens é muito baseada no que se vê na pornografia, talvez por isso o fetiche por sexo anal seja tão grande e os acessórios sadomasoquistas sejam usados em larga escala. Assim como as meninas são condicionadas a procurarem por príncipes encantados, os homens tendem a procurar por atrizes pornô – que, pelo menos após a edição do vídeo, aparentam sentir prazer com violência física e xingamentos. Imagine quantos problemas essas expectativas causam nos casais!

Há cerca de um ano eu assisti uma palestra no YouTube do TED Jaffa de um cara chamado Ran Gavrieli, que estuda Gênero na Universidade de Tel Aviv. A palestra se chamava Why I stopped watching porn (“Por que eu parei de ver pornô”, tradução livre) e eu nem vi inteira porque achei a opinião dele um pouco radical. Ele deu dois motivos pra ter parado de assistir pornô e eu só me importei com o segundo deles, quando assisti a palestra pela primeira vez. O segundo motivo era: vendo pornô, ele alimentava uma indústria da prostituição socialmente aceita. Eu concordo, mas não achei que era um motivo pra influenciar todas as pessoas do mundo a parar de assistirem pornô.

Fonte: TEDx Talks

Somente após estudar mais sobre o assunto, me preocupei com o outro motivo de Ran: que o pornô havia o transformado em uma pessoa mais violenta e agressiva durante as relações sexuais, algo que ele não queria mais. E penso em quantos homens se formaram com essas mesmas ideias. Shelly pede que os homens parem de ver pornô para ajudar as atrizes a não passarem por esse tipo de violência, que continua ocorrendo por ainda gerar tanto lucro.

Tem quem diga que a pornografia é saudável e serve como válvula de escape pra nossa sociedade. Na pornografia, assim como em outras categorias do cinema, nós vemos nossas ânsias – que não podem ser realizadas devido à moral – serem efetivadas em um universo imaginário. Mas as atrizes presentes não são imaginárias. São reais. Sentem muito mais dor que prazer e eu acredito que devamos pensar nisso antes de sustentar uma indústria que, conforme Gail, celebra a violência contra a mulher.

Como alguém pode sentir tesão em ver uma mulher com prolapsia retal sendo penetrada no ânus? Eu acho que o buraco é mais embaixo e haja Freud pra explicar esse fetiche por dor e violência.

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