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Por José Elias Mendes

Não sou e não curto preconceituosos. Nada contra. Questão de gosto. Tenho preguiça de quem destila ódio, sabe? Pior ainda: detesto quem se aproveita da proteção proporcionada pelo anonimato nas mídias sociais pra expressar o que pensa sem medir consequências. Não sou e não curto covardes. Nada contra. Questão de gosto.

Se eu tivesse que apontar uma herança negativa do advento das tecnologias da informação, diria, sem sombra de dúvidas, a liquidez dos relacionamentos interpessoais. Sim, são positivos a facilidade do conectar-se ao outro, a supressão das barreiras geográficas e o inflamento da coragem para se dizer o que sente. Contudo, já dizia minha vó, “vem fácil, volta fácil”. Tão simples como adicionar um amigo virtual de qualquer lugar do globo, é desligar-se dele. E a coragem pra transmitir amor é a mesma para propagar o ódio.

É nesse cenário líquido que surgem os tão incensados sites de relacionamentos amorosos, hoje evoluídos para os aplicativos de celular, como o Tinder e outros. Neles, qualquer erro é fatal. A dinâmica é simples: o papo sempre começa pelas perguntas ‘quebra-gelo’. “Oi”, “Oi”, “Tudo bem?”, “Tudo e você?”, “Bem também. Quantos anos?”, “32”… silêncio. Erro fatal. Ele só curte abaixo dos 30. Nada contra. Questão de gosto. A mesma mão que “curte”, “descurte” sem pestanejar.

Foto: José Elias Mendes

Foto: José Elias Mendes

Como reflexo histórico da homofobia naturalizada pela sociedade, essa espécie de aplicativos se popularizou com mais intensidade entre a chamada “comunidade LGBT”. Por possuírem menos espaços sociais destinados à paquera, lésbicas e gays encontraram, nestas tecnologias, saídas para seus anseios de se relacionarem afetivamente.

Mais especificamente naqueles aplicativos destinados ao público gay masculino, acontece que – e se você já acessou alguma vez, vai entender o que digo – 9 entre 10 perfis trazem estampada, com raras variações, uma frase típica, corriqueira pra quem costuma passar o olho por ali: “Não sou e não curto afeminados”. Nada contra. Questão de gosto.

Veja bem, caro leitor, afeminado é o gay “mulherzinha”. A “bicha”, “viado”, “poc poc”, “pão-com-ovo”. De voz fina e/ou trejeitos próximos ao feminino. Seu oposto é o gay “macho”, “fora do meio”, “discreto”, que “nem parece gay” e qualquer curvatura contrária no gráfico imaginário da masculinidade é abominada. É a partir destes conceitos que a homofobia dá suas caras em sua forma mais maligna: a velada. Da segregação entre “gay bom” versus “gay mau”, surge o ódio disfarçado em frases que se ouvem quase diariamente, em suas mais diversas variações, nas ruas, na escola, no trabalho, na internet, nos aplicativos, em casa:

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Arte: Anna Vitória Rocha

Se já é a maior barra lidar com a chacota na escola, a expulsão de casa, a excomunhão por parte da família, a violência nas ruas, os assassinatos e tudo o mais, já parou pra pensar o quão difícil deve ser a invisibilidade junto de seus próprios pares? Não ser aceito por seus iguais, ser privado até mesmo do direito de amar e, já que eu nem sou romântico, do direito ao desejo sexual?

“Não sou e não curto afeminados”. Nada contra. Questão de gosto. Ah, se essas pessoas ao menos entendessem que os gostos não brotam da combustão espontânea mas, sim, constroem-se a partir de uma cultura de opressão. As preferências são, também, construções sociais que o indivíduo incorpora conforme se apropria do mundo.

Você também percebeu que esses “gostos” são justamente aqueles estimulados pelo machismo? Pois é. Esse movimento de desprezo pelo feminino é histórico e surge ali pela Idade Média, quando a figura da mulher passa a ser demonizada. Ressignificada, essa misoginia também reflete, hoje, na expressão de feminilidade do homossexual, do viado, da bicha.

No mais, forte é a bicha que resiste, que “põe a cara no sol” e que não se deixa invisibilizar por uma normatividade excludente e desumanizadora. Eu, pelo menos, sou e curto afeminados. O que não consigo engolir é gente preconceituosa. Nada contra. Questão de gosto.

Fonte: Canal VEVA

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