ERA UMA VEZ UMA CIENTISTA

Por Anna Vitória Rocha
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Arte: Anna Vitória Rocha

Aos 23 anos, Janaína Esmeraldo Rocha formou-se engenheira eletricista na Universidade Federal do Ceará (UFC), com duplo diploma pela École Centrale de Lille, na França. Seu conto de fadas acima poderia até ser verdadeiro, mas com algumas alterações.

Mantém-se os gatos e as rosas, deixando de lado, no entanto, os fios desencapados e as torradeiras abertas. Embora sempre tenha tido facilidade em matérias como matemática e física – dessas que choram quando vem uma nota 6 no boletim – Janaína pensou em cursar jornalismo, arquitetura e artes plásticas antes de se decidir por engenharia elétrica. “Se eu voltasse pro ensino fundamental e dissessem para mim, naquela época, que eu ia ser engenheira, eu ia ficar horrorizada, porque é difícil associar”, comenta ela.

Até hoje a reação das pessoas ao descobrir sua profissão é cheia de oh! e ah! de perplexidade, que para ela são expressões de uma sociedade que não está acostumada a ver mulheres nessa área. Uma amostra disso é que, dos 120 alunos que passaram no vestibular para Engenharia Elétrica no mesmo ano que Janaína, apenas seis eram mulheres.

Embora já tenha ouvido relatos de garotas que foram hostilizadas por colegas e professores, Janaína nunca viveu isso diretamente. Ela conta que teve sorte e sua grande dificuldade durante a graduação foi em lidar com o paternalismo dos docentes e o problema que seus colegas homens tinham em estabelecer vínculos de amizade com o sexo oposto.

Em sua experiência no Programa de Educação Tutorial (PET) do curso, onde Janaína foi por cerca de um ano a única mulher, a discriminação foi mais palpável: “Eu tinha dificuldade em expor minha opinião, sentia rejeição às minhas sugestões, porque elas eram muito femininas, ou ‘muito gays’, como eles diziam. Era até motivo de piada as vezes. Senti que em alguns momentos eles não me levavam tão a sério como os outros membros”.

No entanto, na hora de elogiar, o referencial dos seus colegas era diferente. Formada com duplo diploma internacional e sem nenhuma reprovação, feito notável num curso de engenharia, Janaína ouvia de seus companheiros de turma que era muito macho. “Eles me comparavam com um homem porque pra eles a figura de sucesso é um homem. ‘Ai Jana, tu é muito macho! Tu é macho mesmo!’ No começo eu achava engraçado, mas depois eu percebi que, gente, eu não sou macho, eu sou mulher, eu sou muito mulher, eu tô me saindo bem e não tem nada a ver”.

Queria ser cientista, mas não conhecia nenhuma

Daniela de Freitas Guedes, ao contrário de Janaína, foi uma criança curiosa, dessas que desmontavam as coisas. Para algumas pessoas, curiosa até demais. Apesar da facilidade que tinha com matemática, a possibilidade de vir a tornar-se uma engenheira também demorou a aparecer. Daniela recorda que, na infância, até sonhava em ser cientista, mas foi desistindo aos poucos, “afinal, você conhece alguma mulher cientista? Eu nunca tinha visto”, conta.

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Arte: Anna Vitória Rocha

Aos 23 anos, Daniela se formou em Engenharia Ambiental na Universidade de São Paulo (USP) e, ao trocar experiências com seus colegas, o que ela mais ouvia de todos os homens ali era que eles queriam ser engenheiros desde sempre. “Meu namorado [formado em engenharia elétrica, também na USP] conta que todo mundo elogiava sua curiosidade e falava que ele ia virar engenheiro porque adorava desmontar as coisas. Eu nunca ouvi isso, só levava broncas por ‘estragar’ as coisas e lembro de ouvir que era curiosa como se isso fosse um defeito, enquanto para ele era uma qualidade”.

O curso de engenharia ambiental da USP é uma exceção dentro da área, com uma porcentagem de meninas em sala de aula bem maior que a média. Na turma de Daniela, por exemplo, metade dos alunos eram mulheres, um número expressivo quando comparado com turmas de engenharia elétrica. Mesmo assim, a estudante conta que viveu episódios de discriminação: “Uma vez entreguei uma prova em branco porque não havia estudado o bastante e não consegui resolver nenhum exercício (na verdade, ninguém conseguiria tirar mais de 2 nessa prova, mas eu ainda não sabia disso). Quando entreguei a prova, o professor olhou para mim e disse ‘é por isso que mulher não pode fazer engenharia’”.

Outra dificuldade enfrentada por ela foi na hora de escolher um orientador para o seu trabalho de conclusão de curso (TCC), pois ela se sentia intimidada pelos professores homens, mas a faculdade tinha poucas mulheres em seu quadro. A preocupação principal era o assédio e também o medo de não ser levada a sério em seu trabalho. “Ouço muitas insinuações sobre o bom desempenho das meninas em algumas disciplinas e ninguém quer ser alvo desse tipo de coisa. A vida acadêmica seria bem mais fácil sem esses medos que a gente sente simplesmente por ser mulher”, explica.

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Arte: Anna Vitória Rocha

Aos 34 anos, Amanda Mendes é mestre em Paleontologia e Estratigrafia na Universidade de São Paulo (USP). Formada em Geografia, Lady Sybylla, como é conhecida na internet, é também professora, blogueira e escritora com vários títulos publicados. No mestrado, Sybylla trabalha na área de paleobotânica, mas ao contrário da sua fantasia, não foi uma heroína de ficção científica que a levou ali. “Não é uma coisa muito comum, eu ‘caí de paraquedas’, mas, felizmente, acabei adorando”.

Os fósseis de planta, seu objeto de estudo, estão distantes daquilo que Sybylla chama de “as estrelas da paleontologia”, os dinossauros. As mulheres também. Enquanto em seu instituto a área da botânica é dominada pelas mulheres – no laboratório em que ela estuda, não há nenhum homem –, o campo dos vertebrados é dominado por eles. “É o efeito Jurassic Park”, brinca ela, fazendo uma referência ao filme que fez com que garotos de várias gerações sonhassem em estudar esses animais pré-históricos.

Fã de ficção científica, Sybylla escreve a respeito do tema em seu blog, o Momentum Saga, que nasceu em 2010. Lá ela também aborda o feminismo relacionado à ciência e, desde 2014, é a repórter informal de ciências do site feminista Lugar de Mulher. Para ela, associar os dois temas foi algo natural, pois sempre notou as diferenças de gênero no meio científico. “A mulher tem que escrever três vezes mais, trabalhar três vezes mais, para ter o mesmo reconhecimento que um pesquisador homem tem e é muito fácil pra ele ter. Vejo quantas vezes nossos artigos vão e voltam de uma revista, enquanto determinado professor publica fácil. O problema é só o texto ou tem mais aí?”, questiona.

Outro exemplo citado por ela dessa discrepância é que as mulheres são maioria nos cursos de graduação, mas sua participação cai muito na pós-graduação. “Sei que na saúde as mulheres são maioria, mas no restante os homens dominam. Nessa passagem para pós muitas mulheres param. Acho que muitas se sentem pressionadas porque estão numa idade de pensar em família e se casar”, explica.

A experiência de Sybylla como professora lhe mostrou que esse problema vem desde a criação, em casa, e a educação básica, onde não há estímulo para que as meninas desenvolvam suas aptidões: “As meninas ganham bonecas porque são bonitas e meninos ganham kits de química. Na cabeça delas isso já está internalizado, que mulher não serve pra exatas e que você não deve ir para exatas. Os professores reclamavam que as meninas iam mal em matemática, e diziam: ‘ela deve ser ruim mesmo, porque mulher não é boa’. Se isso não vier do ensino básico, nossas salas de aula de engenharia vão estar vazias de meninas mesmo. Só sendo muito cego para não perceber”.

Fonte: Andreia Isola

A representatividade também conta muito. Em 2013, ao lado de Aline Valek, Sybylla organizou e lançou a coletânea Universo Desconstruído, com contos de ficção científica de diversos autores, com o objetivo de transcender estereótipos de gênero e mostrar a mulher como um indivíduo ativo, na figura de líderes, heroínas e guerreiras. “Na ficção científica a gente vê homens brancos, héteros, estilo Tom Cruise. Mas quantas heroínas negras a gente vê? Quantas mulheres que sejam heroínas? São poucas, a gente tem bons exemplos, mas são poucas. Isso é um bom exemplo de como as mulheres são tratadas numa obra de ficção. Por que não uma engenheira naval, de petróleo? Só quem já está muito bem representado acha que representatividade é uma coisa que não precisa mais”, problematiza a autora, que cita outras iniciativas, como o Manifesto Irradiativo, no movimento por mais representatividade de grupos excluídos na ficção.

“A gente nunca vai se cansar de apertar essa tecla. Por que é sempre a mulher que é idiota? Eu vou ser a chata que vai sempre falar em representatividade, porque eu, como mulher, estou cansada de ir ao cinema e ser sempre pouco representada, mal representada, não representada de jeito nenhum, ou ainda estereotipada.”, desabafa a bióloga Lúcia Safi. Parece pouco, mas é assim que garotas podem começar a sonhar com possibilidades diferentes para suas vidas, às vezes distantes do ideal do príncipe encantado, com um cavalo branco e um castelo em reinos distantes.

Aos 27 anos, a gaúcha de Porto Alegre hoje faz doutorado na School of Marine Science, na College of William and Mary, nos Estados Unidos. Sua história é um pouco diferente das outras personagens desta reportagem, pois Lúcia sempre sonhou em ser bióloga. Vinda de uma família com duas avós com diplomas de graduação, uma mãe com três pós-graduações e outras duas biólogas na família com pós-doutorado, ela se viu cercada de exemplos que revelavam que, se ela quisesse, o caminho da ciência estava aberto.

Apesar do apoio da família, foram muitos que tentaram lhe dissuadir, alegando que a profissão não traria retorno financeiro. “Eu tive muito apoio, mas isso não é comum. É uma minoria. Isso porque eu sou mulher, porque se eu fosse homem, com aquela coisa do cientista maluco, com uma grande personalidade, ‘ele é tão irreverente, tão brilhante’, aí as pessoas aceitam que tu vai ser pobre. Ainda bem que eu tive minha família pra me apoiar”, conta.

Mesmo com dez anos de vida acadêmica, Safi se sente atingida pela famigerada Síndrome da Impostora: “A gente se preocupa muito mais em ser a melhor o tempo inteiro. A gente não tem que ser perfeita. A gente é muito mais cobrada disso do que os homens e eu gostaria que eu me preocupasse menos com isso, para fazer meu trabalho melhor ao invés de pensar se eu estou fazendo bem, se estou arrasando. Eu não vejo meus colegas homens com essas preocupações, não da maneira como nós temos. A gente não tem direito a ser [simplesmente] boa no que faz.”, disse.

Entre energias renováveis, animais invertebrados, fósseis e estudos sobre o meio-ambiente, Janaína, Daniela, Sybylla e Lúcia representam um contingente maior de mulheres que, com coragem e apesar das dificuldades, tem firmado os pés no terreno “inimigo” das ciências. Em busca de valorização, respeito, incentivo e representatividade, essas mulheres têm contribuído na construção de uma realidade em que garotas podem, cada vez mais, enxergar para si mais possibilidades e oportunidades, independentemente de serem, desde cedo, um prodígio em física ou exímia desmontadora de torradeiras.

O que todas elas esperam é que, no futuro, toda garota tenha direito a uma história mais ou menos assim: era uma vez uma menina que podia ser o que quiser.


O Efeito Matilda

Recorrentemente, descobertas e invenções femininas são atribuídas a homens. Por que isso acontece? A Nós preparou um infográfico que esclarece esse fenômeno que ficou conhecido como “Efeito Matilda” e você pode acessá-lo clicando aqui.

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