EM BUSCA DO POSTO SOCIAL

Por Adrivania Santos

“Eu me sinto uma máquina!”. Esse é o sentimento de um frentista de postos de gasolina, que trabalha diariamente garantindo aos clientes o abastecimento de combustível, a limpeza e a manutenção de seus veículos. Segundo a Federação Nacional dos Frentistas (Fenepospetro), no Brasil há – em média – 500 mil pessoas registradas nesta profissão que coloca em risco suas vidas e saúde, por ficarem expostos aos solventes e lidarem com constantes assaltos. Mas o que percebemos é que eles nem sempre são reconhecidos por esses esforços, muitas vezes, sendo ignorados e tratados como “máquinas”.

Prova dessa invisibilidade é o frentista Wanderlei Castro, que trabalha há um ano e quatro meses em um posto de gasolina na cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Ele acredita que seu uniforme de trabalho e sua profissão o tornam invisível e fazem com que ele ocupe diferentes lugares na sociedade. “No shopping, almoçando com minha família, sou visível e tratado com educação, mas quando visto meu uniforme não sou visto como pessoa, sou apenas o cara que está ali para abastecer o carro dos outros, é automático”. Wanderlei acredita ainda que o preconceito cega as pessoas.  “Somos o que temos e o que vestimos e, se não temos nada, não somos ninguém”.

Antônio Carlos de Oliveira também é frentista e conta que percebe, diariamente, passar despercebido aos olhos dos clientes. Ele acredita que essa invisibilidade não está nele, mas sim na profissão que exerce. “Um dia, passou no posto que trabalho um amigo que conheci em meu serviço anterior, ele não me reconheceu, nem boa tarde falou”. A partir desse dia, Antônio percebeu que era invisível em seu local de trabalho.

Foto: Adrivania Santos

Foto: Adrivania Santos

O filósofo e estudante de direito José Terêncio Junior, conta que só deu destaque a essa profissão depois de morar um ano em Londres – cidade em que os frentistas foram substituídos por máquinas. José admite que raramente criou vínculos com frentistas, mas que a relação sempre foi de respeito. Porém, só em Londres ele entendeu a importância desses profissionais em sua vida. “Senti falta da figura do frentista, as máquinas diminuem a agilidade do abastecimento nos postos de gasolina e ter o frentista para nos servir é cômodo, além de ajudar na economia local, criando empregos”.

Victor Lawrence é estudante de psicologia, já pesquisou a invisibilidade social e acredita que trata-se de um problema que pode ser analisado em duas linhas: a dos estereótipos, por meio da psicologia social e a dos laços perversos, por meio da psicanalítica. Ele explica que os estereótipos são impressões ou padrões que se criam sobre as características de determinado grupo de pessoas, tomando-as como verdadeiras e, assim, a pessoa decide como vai se comportar perante a outra. Victor também considera que os estereótipos podem ser vistos como forma de preconceitos, que são criados no âmbito cultural e familiar. Já os laços perversos, ele define como uma forma de se relacionar com o outro como se ele fosse um objeto. “Nesse caso, o que há de humano no outro é retirado e você vê ali apenas uma função. É um sintoma comportamental que está se desenvolvendo na sociedade”.

Antônio Carlos conta que gosta da profissão, pois interage com muitas pessoas, mas que já pensou em desistir. “Passo o dia todo rodeado de pessoas, mas, às vezes, a gente se sente inútil e desvalorizado”. Segundo ele, o que o faz continuar em sua profissão são os momentos em que é tratado com reconhecimento, sentindo que seu esforço valeu a pena. “Fico feliz quando sinto que alguém me reconhece como um profissional e mais feliz ainda quando eles me reconhecem como pessoa”.


Saiba mais

Quer se aprofundar e entender melhor o trabalho dos frentistas de postos de gasolina? Assista à reportagem do programa Meu Carango na TV, da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

Fonte: Meu Carango na TV

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