BRINCADEIRA SÉRIA

Por Amanda Franciele Silva

A maior parte das pessoas, seja adulto ou criança, já jogou peteca na rua em um dia de sol ou ao menos conhece essa brincadeira de penas coloridas. O que quase ninguém sabe é que esse jogo também é coisa séria, um esporte com regras, competições e federações. A hora de lazer transforma o jogador em um atleta apaixonado.

Andando entre a população, atendendo pacientes, construindo casas, julgando um processo ou estudando ao seu lado pode estar algum atleta. São aproximadamente 300 campeões estaduais disputando o Campeonato Brasileiro e 1500 disputando os estaduais. No Praia Clube da cidade de Uberlândia, uma das maiores potências na modalidade em Minas Gerais, são em média 55 federados e 80 competidores. E aposto que você nunca ouviu falar deles, a não ser que seja amigo ou familiar de algum jogador.

Família, aliás, é uma das palavras-chave da continuação do esporte. São inúmeros os casos de familiares, sejam primos ou pais, que começam a praticar juntos. Leonardo Assis, professor da modalidade no Praia e atleta há 20 anos, é um desses exemplos. “Meu primo veio a um campeonato em Uberlândia, viu algumas crianças jogando e voltou para Patrocínio com isso na cabeça. Então chamou dois primos e eu para treinarmos e desde aí não paramos mais”, conta. A família inteira se envolveu e são vários os membros que já competiram. “É um esporte com tradição de anos, jogam avôs, pais, netos, filhos”.

Adriana Pinheiro, coordenadora de peteca de competição do Praia Clube também entrou no esporte por influência da família. Seus filhos jogavam pelo clube e, por sempre acompanhá-los, descobriu a paixão há quase 25 anos. Estudou e há dois anos trabalha na área, viajando com a equipe e organizando competições. Apesar de serem pouco divulgadas, são aproximadamente 13 competições por ano, sediadas em vários estados do país.

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Enquanto as famílias continuam a tradição em torno dessa “brincadeira”, a imprensa não quer fazer parte da festa. A falta de divulgação da peteca como esporte pode ser explicada por três fatores principais: as federações, os clubes e a visão do esporte. De acordo com Leonardo, “as federações não se empenham, os clubes sem recursos não conseguem patrocínio porque dependem da confederação e, em muitos lugares, ainda não é considerada uma modalidade”.

Infelizmente o esporte é visto como amador e recreativo. Adriana destaca que “por não ser uma modalidade olímpica, talvez não atraia muito investidores e nem pessoas que se interessem em assistir e praticar”. Já houve solicitações para tornar o esporte olímpico, mas existem quesitos que a peteca não conseguiu cumprir.

A coordenadora de competição ressalta que, para atrair a atenção, é utilizada principalmente a “divulgação caseira, no Facebook e nas outras redes sociais”, além dos meios de comunicação do Praia Clube, como revista e televisão. Mas ela considera que, se um número maior de pessoas conhecesse o esporte, “que é uma modalidade muito interessante, nós teríamos mais praticantes”. Marco Túlio Merola, atleta há sete anos, ressalta que “se a peteca não é vista pela sociedade, não tem como o esporte se desenvolver”.

A divulgação é essencial e dois pontos podem ser importantes para auxiliar: a prática nas escolas e a abertura de espaços. Adriana lembra que a peteca pode ser tratada tanto como esporte quanto de forma lúdica, trabalhando sua confecção com as crianças. O professor Leonardo também destaca a importância de ensinar o esporte nas escolas, incentivando desde a infância. Já Marco Túlio conta que conheceu a modalidade e pegou gosto assistindo, assim, opina que seriam interessantes “torneios em locais mais públicos, abrindo espaços para torcedores e liberando uma quantidade de convites para assistir competições no clube”.

Assistir a um jogo de alto nível é bastante interessante, os movimentos da peteca e os pulos, giros, cambalhotas e gritos promovem emoção e geram torcida, principalmente “quando há certa rusga ou provocação entre jogadores, o que acaba atraindo o público e fazendo escolher um ou outro”, ressalta a coordenadora. Por ser mais fechado enquanto esporte, os praticantes estão sempre em contato, o que promove essa interação, com rivalidades e amizades. Marco Túlio criou vínculos ali dentro. “Além de colegas de esporte, viraram amigos pessoais, tanto de dentro da cidade quanto de outros cantos do Brasil”.

PETECA

Foto: acervo pessoal de Leonardo Assis

Leonardo faz questão de ressaltar que a peteca melhora sua qualidade de vida e disposição e auxilia na vida social, uma vez que “melhora sua convivência com as pessoas”. Adriana lembra: “Quanto mais pessoas participarem, mais chance você tem de jogar, de praticar, de melhorar”. A brincadeira passa a exigir treino, dedicação e paixão. Ela define: “o esporte é como uma arte”.

Atletas

O preparo é fundamental para qualquer atleta e na peteca não seria diferente. O competidor em alto nível recebe todo o suporte necessário e possui uma rotina de treinamento para se manter nas primeiras posições. Parece coisa só de esporte reconhecido, mas não: os jogadores realizam exames e avaliação médica antes de começar a temporada.

Com a saúde em dia, vem a preparação, treinos e fortalecimento. O professor Leonardo afirma: “É preciso ter vontade, disponibilidade, repetição, malhação e treino aeróbico”. O treinamento específico ocorre de duas a três vezes na semana, além dos tradicionais jogos-treinos, os famosos “rachas”. O esporte tem fama de brincadeira, mas se o jogador virou atleta, é importante seguir à risca a rotina.

Marco Túlio é o atual campeão brasileiro de sua categoria e lembra que, para continuar no esporte, além dos treinamentos, é necessário “incentivo dos clubes, suporte de treinador, fisioterapeuta, médico e academia”. Ele conta ainda que o Praia Clube custeia as viagens – estadia, locomoção e alimentação – dos seus competidores, mas não é toda equipe que recebe esse apoio. Leonardo fala que muitos atletas desistem, pois precisam arcar com os seus gastos.

Foto:

Foto: acervo pessoal de Marco Túlio Merola

Adriana considera que o esporte está longe de se igualar ao futebol ou vôlei, com profissionalização dos atletas, e explica a modalidade como “uma opção para aquela pessoa que não teve a oportunidade de se formar atleta, que estava estudando para passar no vestibular, ter uma formação numa profissão que exigisse mais tempo de estudo”. Depois de formados, existem os dois lados da moeda que explicam a diversidade de formação profissional dos atletas: a realização de um sonho e a falta de tempo.

Com a rotina de treinamentos, alguns praticantes desistem do esporte, “porque vão se formar, investir na profissão e infelizmente a peteca não dá um futuro”, destaca Leonardo. Mas há também aqueles que enxergam ali a oportunidade de “agir e a treinar como se fossem atletas”, afirma Adriana. Já Marco Túlio pensa que se continuar “sempre investindo, sempre renovando os atletas, a prática nunca vai acabar”. É o que esperam os admiradores dessa modalidade pouco conhecida, mas tradicionalmente apaixonante.

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