ALÉM DA CATRACA

Por Giovana Oliveira

Janeiro de 2015. O recesso de final de ano acabou e era hora de retornar a rotina que eu vinha seguindo há um ano, desde que entrei na faculdade. O trajeto da minha casa até lá dura em média doze músicas. São dois ônibus e milhares de pessoas de um lado para o outro, concentradas em seu próprio mundo, mergulhadas nos mais variados pensamentos.

Acordei seis horas da manhã. Cinquenta minutos depois, já estava indo para o ponto esperar pelo ônibus, quando percebo que esqueci meus fones de ouvido. Pronto, o dia seria mais difícil sem música, mas vida que segue. Dez minutos depois, estou passando pela catraca, apenas pensando se teria algum lugar para me sentar. Graças ao Universo, tinha.

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Foto: Bianca Mara Guedes

Me sentei dois bancos atrás de onde fica a cobradora. Sem fones de ouvidos para me distrair, resolvi olhar as pessoas ao meu redor. Como já esperava, estavam todos concentrados em seus celulares. Olhei para frente e lá estava a cobradora, a mesma que eu me lembrava de ter visto no dia anterior, no ônibus em que voltei para casa. Espera aí!!! Mas eu dei “bom dia” para ela? Alguém deu “bom dia” para ela? Acho que não.

Envergonhada pela minha falha, decidi observar aquela mulher. Ela aparenta ter 40 anos, talvez menos. Pela aliança na mão esquerda, é casada. Pelo colar com pingente de dois bonequinhos, deve ter dois filhos. Será que ela tomou café da manhã com todos na mesa? Será que ela gosta do trabalho que faz? Quais serão os seus sonhos? Em meio às minhas perguntas mentais, ela olha para mim e sorri. Eu sorrio de volta. Ela volta sua atenção para o passageiro que pede o troco apressadamente à sua frente, sem ter dado um “bom dia”.

O ônibus chega ao terminal e desembarco, ainda pensando nas perguntas, nas constatações da minha cabeça e no sorriso que a cobradora me deu. Será que ao final do dia alguém vai ter lhe dado um “bom dia” ou lhe perguntado como está indo sua família? Prometo a mim mesma que amanhã, quando passar pela catraca, com meus fones de ouvido e um sorriso no rosto, lhe falarei ao menos um “bom dia” e um “tudo bem?”. Afinal, apesar da correria, convivemos todos os dias. Ela está ali, não é invisível. Isso pode mudar toda uma rotina.

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