A INEXISTÊNCIA DO OUTRO

Por Maryna Ajej
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Foto: Laura Moreira

Quantas vezes você já foi a uma praça de alimentação e, após a sua refeição, deixou a bandeja e levantou da mesa? Ou fez suas compras e, ao descarregar as sacolas no carro, deixou o carrinho de supermercado na vaga ao lado? Quantas vezes você deixou de pensar no outro ou, simplesmente, não quis pensar? Vivemos situações assim todos os dias e, na maioria das vezes, acabamos não fazendo nada para mudar isso. Não sei porque ainda me impressiono com a facilidade que possuímos em não enxergar o outro. Como podemos permitir que isso aconteça?

Vivemos em um mundo de serviços, não estamos preocupados com quem faz, só queremos que o serviço seja feito. O balconista, o manobrista, o gari, o garçom… nunca nos preocupamos sobre quem está exercendo esse trabalho, mas, sim, com o seu cargo ou com o que aquela pessoa fará para nós. Mais uma vez, comprovamos nossa falta de humanidade, contribuindo para a “não existência do outro”.

Fernando Braga da Costa, em sua pesquisa de mestrado, comprovou que a invisibilidade social existe. Por oito anos vestiu-se de gari e varreu as ruas da Universidade de São Paulo (USP). Ele conta como pessoas que o conheciam, como doutores e alunos, passavam por ele e nem o reconheciam por causa do uniforme. O pesquisador afirma que, como gari, nunca recebeu um “bom dia” e que isso representava um “significar” da sua existência.

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Fonte: Pixabay

Outro dia, estava no shopping e, esperando minha mãe no estacionamento, me deparei com uma situação que é recorrente na nossa sociedade, porém lamentável. Uma mulher, por volta dos 30 anos, estacionou na vaga de idosos, saiu do carro e entrou no shopping como se nada estivesse errado. Talvez pra ela não estivesse ou talvez ela não quisesse acreditar que estava.

As pessoas estão acostumadas, mas novos costumes podem ser adquiridos. Uma vez li que é preciso 21 dias para que um novo costume seja adquirido. Então por que não tentamos enxergar o outro? Não sei se isso tem a ver com a cultura ou com educação, mas ao invés de tentar descobrir o porquê de tamanho egoísmo das pessoas em relação às outras, dessa vez (e apenas nessa situação) acredito que devamos olhar para nós mesmos.

Após um lanche na cantina da faculdade, vi que várias pessoas ao levantarem dos locais em que estavam sentados, deixaram guardanapos, copos e talheres de plástico em cima da mesa. Como eu estava tomando um açaí, pensei: porque eu deveria jogar meu copo no lixo, se todo mundo estava deixando em cima da mesa? Porém, logo em seguida, pensei: por que eu não jogaria? Se os outros podem ter tamanha influência sobre mim, talvez eu também possa ter sobre alguma pessoa. Joguei meu lixo fora e espero que tenha servido de exemplo.

Edição: Flahana Pfeifer

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